O genérico do paradoxo imperfeito
quis uma coisa que de tão perfeita achei não existisse... Pra ser sincera, nos meus melhores dias eu até acreditava que ela pudesse existir sim, em algum lugar distante, remoto, onde eu provavelmente não colocaria os pés nunca. Aos poucos, descobri que um mundaréu de gente também desejava a mesma coisa que eu.
Mas algumas a chamavam de outros nomes, enquanto outros a definiam de outras maneiras... Tinha gente que berrava aos quatro cantos: “encontrei!!!!”. Eu corria pra ver, mas acabava saindo logo em seguida dizendo: “Não! Não! Não é isso, minha gente! Não é isso que tô procurando.” Às vezes eu sentia pena dos que diziam que procuravam a mesma coisa que eu, mas se deixavam enganar tão facilmente por cópias mal feitas; noutras eu sentia raiva das pessoas que, de tão carentes, se contentavam com pouco: com o relance, com o vislumbre em forma de relâmpago, de uma coisa que pra mim sempre pareceu ser mais luminosa e duradoura...
Tudo o que eu encontrava com o mesmo nome por aí, era diferente do que eu imaginava que fosse a bendita coisa que eu queria. E isso me fez acreditar que ela fosse uma criação da minha fértil imaginação, conseqüente de um ato inconsciente e desesperado de consolar a mim mesma pela minha falta de sorte na trajetória interminável de encontrar o meu tesouro em forma de coisa...
Ao acreditar que essa coisa não existia, em outro lugar que não fosse dentro de minha mente insana, condenei a mim mesma a experimentar a frustração eterna, porque eu bem sabia que continuaria a procurar por ela, ainda que soubesse que não passava de ilusão.
Até que um dia – pra minha surpresa – a encontrei! O susto foi tão grande, mais tão grande, que duvidei! Achei que fosse só mais uma das cópias mal feitas, dessas que enganam os bobos por aí... Demorei muito pra acreditar na veracidade e, mais ainda, para me apegar a ela.
Para finalmente possuí-la, eu teria que me desprender de minha fantasia mais real e abraçar a materialização do devaneio que tanto alimentei. Não consegui. Enfrentei o paradoxo imperfeito do modo mais infernal possível: o modo linear e constante. A mistura de alegria e suspeita habitava em mim em cada instante de cada um dos dias que seguiram a possível e tão esperada descoberta...
mas a descrença tomou conta de mim de tal forma que me apavorou e paralisou por completo. Senti-me engessada, acuada, pelo medo de descobrir que o que eu tanto desejei - e finalmente parecia ter encontrado - pudesse ser só mais um clone distorcido, um genérico que em nada serviria para a minha necessidade específica e fatal de amar.
Resolvi esquecer essa coisa chamada amor antes mesmo de conhecê-la e tratei de encontrar uma outra coisa para procurar.