Edição 4

Que perfume te evoca?

Bárbara Lia

perfume te evoca? Perfumes eternizam as horas. Dia desses comprei um sabonete igual ao que usei em Poa, perfume de calêndula, só para lembrar daqueles dias, o sol, as bandeiras emaranhadas, idiomas & sons & vida. Sexta, passando pela Rua Ponta Grossa, parei à sombra de uma árvore frondosa.

O capim e as flores e aquela sombra guardavam um perfume dos quintais da infância. Ter de novo sete anos, sentir o cheiro de terra molhada, de mel, e ouvir abelhas zunindo, borboletas fluindo, aquela aura de felicidade... Tens perfume de fogo, aura de labaredas, alguma coisa de calor que tento relembrar e tudo se apaga, isto acontece quando eu transcendo...

Transcendi nas noites que te vi sorrindo? A transcendência anula essa brutalidade da matéria e inaugura o minuto-instante-hora grandiosos. O perfume da poesia, meio almiscarado, impregnado de maresia e azuis... o lusco-fusco perfume de um ambiente preparado, onde a palavra flana e enovela tudo...

Qual o teu perfume? Ou qual o antídoto? Que lavou minha alma, e retirou a mortalha? Retirou as ataduras que mumificaram os meus desejos, desenrolou-me ao som de uma orquestra de violinos, as gazes porosas onde eu retive o passado impregnado, mal cheiroso, enrustido.

E me atirou nua na nuvem dos desejos, nuvem perfumada de baunilha. Não bastava abrir a tampa do sarcófago triste? Precisava ainda me desnudar inteira? Lavar com água cristalina a pele antiga até que ela pudesse palpitar de novo em cada poro, o desejo,o desejo, o desejo, olvidado, ignorado, quase perdido...

Fogo de cetim, labaredas de alecrim, velas vermelhas e incenso de jasmim, alguma coisa assim, que seja tão infinita em tudo, noite de lua, cama carmim. Faz um soneto de amor para mim? Ou devolva o invólucro retirado, e me enterre noturna e trágica no sarcófago de onde me ergui.