Que perfume te evoca?
perfume te evoca? Perfumes eternizam as horas. Dia desses comprei um sabonete igual ao que usei em Poa, perfume de calêndula, só para lembrar daqueles dias, o sol, as bandeiras emaranhadas, idiomas & sons & vida. Sexta, passando pela Rua Ponta Grossa, parei à sombra de uma árvore frondosa.
O capim e as flores e aquela sombra guardavam um perfume dos quintais da infância. Ter de novo sete anos, sentir o cheiro de terra molhada, de mel, e ouvir abelhas zunindo, borboletas fluindo, aquela aura de felicidade... Tens perfume de fogo, aura de labaredas, alguma coisa de calor que tento relembrar e tudo se apaga, isto acontece quando eu transcendo...
Transcendi nas noites que te vi sorrindo? A transcendência anula essa brutalidade da matéria e inaugura o minuto-instante-hora grandiosos. O perfume da poesia, meio almiscarado, impregnado de maresia e azuis... o lusco-fusco perfume de um ambiente preparado, onde a palavra flana e enovela tudo...
Qual o teu perfume? Ou qual o antídoto? Que lavou minha alma, e retirou a mortalha? Retirou as ataduras que mumificaram os meus desejos, desenrolou-me ao som de uma orquestra de violinos, as gazes porosas onde eu retive o passado impregnado, mal cheiroso, enrustido.
E me atirou nua na nuvem dos desejos, nuvem perfumada de baunilha. Não bastava abrir a tampa do sarcófago triste? Precisava ainda me desnudar inteira? Lavar com água cristalina a pele antiga até que ela pudesse palpitar de novo em cada poro, o desejo,o desejo, o desejo, olvidado, ignorado, quase perdido...
Fogo de cetim, labaredas de alecrim, velas vermelhas e incenso de jasmim, alguma coisa assim, que seja tão infinita em tudo, noite de lua, cama carmim. Faz um soneto de amor para mim? Ou devolva o invólucro retirado, e me enterre noturna e trágica no sarcófago de onde me ergui.