Edição 4

Água guardada

Beatriz Bajo

que a folha virgem de tinta fosse pele seca, virgem de água Imagine como é a folha... amarelada de medo do tempo Como é o vento? Espera o papel seco, seca tinta que seca Seca é mudez é gangrena é estupidez atura a letra tua que sua, pira, transpira, pira suave pingente de chuva anel de esperança corrente verdade suada conversa que alaga Água guardada grudada de mofa lago de idéia queimando a mufa mofando os pêlos pelando casca pelada duro casco ferido.

Amassa o papel folha amar ela enruga rasga a pele carne odia desce cala e aquece, aquece, esquece, esquenta lança mão da oração, do verbo da caneta pede, repede, ora, passa hora... cansa de corar, escolhe outra cor Tinta azul, por favor!!! Um mergulho poroso na folha um refresco aos poros um gozo um hidratante remédio anestésico emplasto poça poção um oásis nas linhas das mãos calafrio de redenção um balde de água fria à fraqueza à moleza à anemia afoga a imagem da morte joga com a ironia da sorte luta por empoeiradas sobrevidas.

Sobram coágulos febris de fé rogando pelas frestas dos reservatórios certeza de sertão, ser tão triste, ser tão seco ser errado, cerceado, ser cerrado velório rasura rabisco borrão berro no borralho grito silencioso transverso coração cauterizado inverso de universo versão que vaza, que esvazia.

Quem resiste, quem insiste é o verso chama lava amorna as chagas. Bah! leia o que está escondido dê nome aos filhos sinta derramar-se molhe e não amoleça abasteça os açudes, os vãos forneça força aos depósitos liberte as represas preencha entorne beba brinde à Vitória!

que a existência circula pulsa, retorna gera cerca roda continua e renova secando e banhando os caminhos os ternos tingindo os cadernos drenando os peitos de inverno. Miragem de sonho, raiz de quimera Era uma vez... Quem sabe? Quem dera! florescente semente, fresco sereno fluente seresta de ser esta página para lavar a alma, para irrigar a mente.

Tatuagem de gente feliz escrita úmida apostando num bis mesclando pingos de peles sorrisos terras de matos papiros papinhos de lis ...o vento anuncia virando a gravidez das nuvens que choram raiando amando a guache no papel de Fabiano Que graça teria Graciliano, sem ramos?