Edição 4

Nostalgia de um errante

Cesar Ribeiro

Havia ainda alguns minutos para que as luzes artificiais piscassem no horizonte anunciando mais um ano que terminaria. Ela estava do outro lado da cidade — o que significava estar fora do mundo — e eu fingia chorar uma dor sincera, um misto de arrependimento e pedido de desculpas por mais uma vez colocar um ponto final em algo que precisava apenas de reticências. Em seu ventre, uma nova vida era engendrada e não haveria um traço meu que possibilitasse uma continuidade. É difícil conciliar tristezas e alegrias quando a tristeza é individual e a alegria é pelo outro.

Ao redor de meu prédio, em que estava em meu quarto mais uma vez sozinho por opção, inúmeras vozes mesclavam a felicidade da esperança àquela provocada pelo álcool, crianças e adultos e velhos aguardando um novo altar de preces simbolizado pelo 2006 que terminava e pela possibilidade que surgia. Em outra cidade, mas a pouca distância daqui, meus familiares se preparavam com champanhes e risadas e conversas amistosas. Em paragens próximas havia os amigos, seja na solidão da meditação no campo ou na sexualidade das praias à busca de novos corpos. Promessas de novo ano se espalhavam em todas as mídias, à procura de uma vida que fizesse sentido, ou mais sentido.
Nada disso importava. Ela estava sentada ao redor de uma mesa que não mais me pertencia, conversando sobre livros e filmes e peças de teatro como fazíamos em eras remotas. Seus pais certamente acariciavam com palavras o neto ainda não nascido. Havia música, provavelmente uma ópera, e danças na sala mobiliada com sofás e poltronas e inúmeras plantas. Ela sorria, não o sorriso da insegurança de situações em que se parece não ser convidado, mas o sorriso de uma felicidade genuína que há muito tempo ela não tinha. Estava finalmente em meio aos seus, e sentia isso com a mais profunda força. A vida não mais estava ao redor dela, e sim nela.

Instantes depois, o céu estremeceu de cores e flashes, os abraços e beijos se levantaram em todos os lugares, surgiram lágrimas de felicidade que molharam a terra quente e faziam-na respirar. 2007 havia chegado. Sozinho em meu quarto, eu chorava, um pouco por alegria e um pouco por saudade, por saber que era mais um fim. Peguei meu copo de uísque e dei um longo gole. A campainha tocou...