Nostalgia de um errante
ainda alguns minutos para que as luzes artificiais piscassem no horizonte anunciando mais um ano que terminaria. Ela estava do outro lado da cidade — o que significava estar fora do mundo — e eu fingia chorar uma dor sincera, um misto de arrependimento e pedido de desculpas por mais uma vez colocar um ponto final em algo que precisava apenas de reticências.
Em seu ventre, uma nova vida era engendrada e não haveria um traço meu que possibilitasse uma continuidade. É difícil conciliar tristezas e alegrias quando a tristeza é individual e a alegria é pelo outro. Ao redor de meu prédio, em que estava em meu quarto mais uma vez sozinho por opção, inúmeras vozes mesclavam a felicidade da esperança àquela provocada pelo álcool, crianças e adultos e velhos aguardando um novo altar de preces simbolizado pelo 2006 que terminava e pela possibilidade que surgia.
Em outra cidade, mas a pouca distância daqui, meus familiares se preparavam com champanhes e risadas e conversas amistosas. Em paragens próximas havia os amigos, seja na solidão da meditação no campo ou na sexualidade das praias à busca de novos corpos.
Promessas de novo ano se espalhavam em todas as mídias, à procura de uma vida que fizesse sentido, ou mais sentido. Nada disso importava. Ela estava sentada ao redor de uma mesa que não mais me pertencia, conversando sobre livros e filmes e peças de teatro como fazíamos em eras remotas.
Seus pais certamente acariciavam com palavras o neto ainda não nascido. Havia música, provavelmente uma ópera, e danças na sala mobiliada com sofás e poltronas e inúmeras plantas. Ela sorria, não o sorriso da insegurança de situações em que se parece não ser convidado, mas o sorriso de uma felicidade genuína que há muito tempo ela não tinha.
Estava finalmente em meio aos seus, e sentia isso com a mais profunda força. A vida não mais estava ao redor dela, e sim nela. Instantes depois, o céu estremeceu de cores e flashes, os abraços e beijos se levantaram em todos os lugares, surgiram lágrimas de felicidade que molharam a terra quente e faziam-na respirar.
2007 havia chegado. Sozinho em meu quarto, eu chorava, um pouco por alegria e um pouco por saudade, por saber que era mais um fim. Peguei meu copo de uísque e dei um longo gole. A campainha tocou...