Edição 4

A língua em transe

Célia Musili

falar chinês, javanês, árabe, gaulês, português arcaico, todas as línguas mortas e vivas. Encontrar vocabulários não é para qualquer um, há pulsações. Preciso de um exercício dadaísta para descobrir sentidos obscuros. Quero todas as estéticas e as linguagens , a poesia e a prosa, o sentido arrancado a fórceps dos esconderijos para compreender, afinal, o que vai por dentro de mim, já que não posso decifrar o outro.

Há sentimentos maiores que as frases e as sílabas, há sentimentos que não cabem em parágrafos, há sentimentos que extrapolam as letras, corrompem vírgulas, atropelam pontos. Há sentimentos para os quais teríamos que inventar códigos impossíveis. Destes que riem e choram.

Seu peso viola a lógica da contenção ou do transbordamento. Sinto-me tão ocidental quando tento me exprimir com palavras, que rio de mim mesma como se fosse um cão a perseguir o próprio rabo quando ele gira a dança dos dervixes. Sentir é um transe. É diferente de decifrar emoções em código e repetir: amor âmago amordaçado ausente antigo antagônico êxtase errante eletricidade erótica coruscante cristal cravo desejo ardente cítara sutil afresco hiato incandescente sem saída Tentar decifrar o que se sente é como ver o mar e uma entidade pungente naquela engenhosidade líquida.

Impraticável mecânica. Ninguém consegue abraçá-la, parar seu movimento, quem dirá... dizê-la. Querem saber? O sentimento é como o mar, nos lambe e devora, como a língua de um grande deus insondável e quântico .