Fragmentos
em uma bebedeira ir ao chão e sentir a textura do asfalto. Rua quase deserta numa noite de verão tardio. Sinto e ouço tudo ao redor num tempo fora do tempo. Prédios que se curvam como observando meu corpo caído. Um universo em desencanto gira em minha mente rumo ao caos.
A loucura de precipícios infinitos. Estou fixo, tudo gira numa espiral excêntrica. Em um segundo não é meu corpo estendido no asfalto quente. Estou em pé enquanto as pessoas passam zunindo. Vestidas em sua importância para resolver algo mais importante.
Uns mais importantes que outros. Todos importantes. Olho em todas as direções ainda tonto com a vertigem. Os objetos ao redor se tornam mais nítidos, opressivamente nítidos. A luz que se reflete me atinge como projéteis de alta velocidade. Algo invisível se aproxima e não sei de onde.
Giro lentamente e a multidão passa sem cessar. Respiro fundo e procuro sinais de continuidade. Em algum lugar da memória devo estar perdido de mim. – 2 – Taquicardia. Sentimentos que esfrangalham meu peito. A raiva nas palavras contidas. Fluxo de adrenalina.
A boca seca. Olho para seus lábios e eles adquirem dimensões absurdas. Suas palavras soam rasgando os tímpanos. A vibração de seu som me dá náuseas. Não tenho tempo para a razão. Sou fustigado por sua ira repentina. Desvio meu olhar para uma pedra solta na calçada.
Olho-a em detalhes. As palavras não param. Vejo pequenos pontos que refletem a luz do sol pálido de outono. A pedra me acalma. Imagino que meu corpo se desvia das palavras. Elas passam e se perdem no universo. Não as rebato. O coração se acalma. Respiro melhor quando estou tranqüilo.
Amplio o círculo de meu olhar procurando outras pedras. Ela continua com suas palavras. Eu só vejo pedras nas calçadas. – 3 – Já não tenho sonhos, apenas fragmentos. Ânsias planando num universo de possibilidades. Decisões a cada esquina, como escolhas em uma prateleira infinita.
Círculos que se fecham em torno de mim. Contendo ímpetos que me fazem trespassar as identidades alheias. Ultrapassando meandros de mentes tortuosas em noites perdidas. Noites que se confundem invisíveis. Rebato sensações que se fecham em meu coração oprimido.
Não agüento mais as idéias descartadas por bocas escancaradas. Por mentes ofuscadas. Fragmentos de idéias fomentadas por excessiva informação desconectada. Incoerentes, mas atualizadas. Ultrapassadas, mas revisadas. Calo-me, quando posso. Quando consigo conter essa raiva que se solta de meu ego.
Olho ao redor e fico indeciso entre as loiras e as morenas, entre tomar mais um trago ou sair andando. Deixando para trás essas bocas e suas palavras. Busco o olhar do altiplano. Quero ser como que olha de cima e contempla a paisagem. Sem decifrar qualquer mistério, sem desvendar a realidade em um discurso místico.
Percebendo fluxos que se misturam em arranjos impossíveis. Perdendo-me em enxurradas de ações que me levem adiante em uma linha do tempo. Extasiando-me a cada encontro como se fosse o último.