Edição 4

Boneca de louça

Karina Abramovich

preferia quando eu podia me preocupar com aquele meu ‘não viver’. Por que me sentir viva não me trouxe lá muitas vantagens, até por que eu não tenho tempo. E não ter tempo pra ser feliz é fóda. Eu quero tirar essas asas aqui das minhas costas agora. Tem me sido inúteis e ainda por cima pesam pra caralho.

Por favor, um cirurgião, um estúpido cupido, qualquer coisa. Alguém que manje do que essa porra toda se trata. Preciso de conserto, ou no mínimo de explicações, um manual com um índice objetivo. Quero desplugar um monte de coisa aqui e eu não sei como é que eu faço.

Parece que dói. Parece que dói e eu não tenho resistência. Sempre funcionando como um ácido de mim para mim mesma, tudo desintegrando e eu não posso mais. Senão vira bagunça. E eu já sou bagunçada demais. Se passar daquela linha de limite ali, ó, aquela que eu to vendo logo ali na frente, eu não sei como é que eu vou agüentar.

Colapso. Paralisia. Não dá. Excesso demais. Nada saudável. Vou ficar doente de mim. Então que, por favor, alguém chegue aqui com uma caixinha de curativos. Já foi o tempo que eu conseguia sozinha. Não que eu não consiga se eu quiser, mas estou poupando minhas vidas.

Joguei tantas fora. Me mataram tantas vezes. E eu só dei esse direito pra duas pessoas. O resto foi tomando conta enquanto eu não percebia. Era só olhar pra dentro e ver. Tudo morto. Eu sempre esperando a dança no tapete com B.B. King no cd player. Me pega desprevenida, encosta a barba no meu pescoço.

Não fala nada pra eu entender, se move e me guia. E escuta que ta bem baixinho, “please accept my love”... Opa. Olha pra mim sonhando de novo enquanto nem eu mesma percebo. Sempre querendo juras de amor embaixo de uma lua bem grande. Mas nem as juras, nem as juras!

A lua e seu brilho pálido sempre em cima da minha cabeça e eu sempre sozinha olhando pra ela (meu deus, quem é que olha pra cima ainda enquanto se tem tanta coisa pra fazer por aqui, no meio dos que sabem viver?). Danço sozinha em frente à janela com os olhos fechados, meu cigarro aceso (apontado pro alto) e um copo com mais gelo do que bebida envolto num guardanapo pra tentar desconsiderar minha inveja da humanidade..

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