Edição 4

Na terça os lobos tiram as vampiras para dançar

Roberta Silva

Neblina veste a ventania
soprano desse festival de amor.
O enfeitiçado esgueira-se mata adentro
num uivo solo a desperta do torpor.

Na terça os lobos tiram as vampiras para dançar.

Luz negra tinge de azul a musa morta.
Curvado como um servo à sua esquerda,
Lupus, o lobo, a espera e vigia a porta.
Observa-a e a seus próprios pêlos se levantarem.

Na terça os lobos tiram as vampiras para dançar.

Arrasta-se mendicante, demarcando seu território.
Por covardia e devoção, lambe suas mãos.
Só eles conhecem o verdadeiro dia febril.

Seminua, semicerrados os olhos
arrepia-se enquanto Lupus
enrosca-se cambaleante em seu corpo.
O amaldiçoado levanta-se.

Quebrado metade de seu encanto
meio humano, meio fera
toma-a em seus braços
e amorosamente a dilacera.

Lágrimas famintas e desejos saciados
inundam seu coração assassino.
Blasfema contra si e volta ao covil
para se recompor até a próxima segunda, pois

na terça os lobos tiram as vampiras para dançar.