Carta sem endereço (número 9)
dia descobrimos que deixamos para trás as delicadezas. Foi assim como um sopro, um vento inesperado de palavra rude ou de ausência calculada. Um dia descobrimos que as gentilezas se esvaem e as sílabas que vieram à luz não resistem ao sol do tempo e aos desencontros trôpegos das ternuras mortas.
Sabe-se lá por quê? Não há respostas. Nesta hora recolhemos ao labirinto do coração o que um dia se chamará memória: um lago de superfície metálica onde escondemos a nossa melhor parte. O húmus e as algas, a raiz flutuante do nenúfar, os peixes, nossa indizível emoção.
Assim são para mim suas palavras. Perfiladas em cartas, maços de correspondências, frases esmaecidas como a vibração da história vencida e sem nenhum herói. Perdemos. Só o que não se perde é a sensação do corpo, o calor indizível que aquecia a alma. Aquele instante em que meu espírito tocou o seu espírito sem prazos e sem reservas.
Um desabrochar de gestos, um despetalar de beijos, um rio de carícias que segue para sempre as curvas improváveis do que não basta para conter o que, afinal, se sonhou. Meu rio não desaguou no mar, a contrariedade dói. Mas enterramos as trocas com a fingida indiferença que se exige dos fortes.
Lá longe, num ponto do horizonte em que ninguém se lembra, seu nome será um cântico, um desassossego de “erres”, um ronronar semântico. Aqui e agora sinto apenas ausência, o encontro impossível, a faísca estelar que se desprende da constelação do afeto.
Ando na contramão da Via Láctea, sou passageira do desejo inconsumado. Mas reconheço que aquilo que se vive por amor será, no fim de tudo, a única força capaz de reverter o imponderável encontro com o vazio, iluminando os dias passados com pequenos insigths de felicidade.