Edição 5

A angústia de Adão quando tornado homem

Cesar Ribeiro

quando tornado homem Cesar Ribeiro Operava milagres no subsolo de seu choro enquanto gozava o último sêmen luminoso de seu caos ao ver-se dominado pela mulher que vestia turbantes negros furtados de uma pacata senhora que assassinava seu mais velho gato em meio à auto-estrada que levava aqueles rotos retirantes de volta ao nordeste de suas secas.

Enquanto isso no canto do caminhão um jovem avistava a lua distante naquele céu que iluminava o discurso suicida de um veterano da guerra que cansava ao descontar seu último cheque naquele banco perto da praça onde viu seu filho cantar a primeira música e falar a primeira fala ao dizer 'pai'.

No mesmo momento em que ouvia 'pai' soava o hino nacional revelando o país onde vive o santo homem que curou as pernas tortas do mendigo que andava pelas praças limpando as calçadas para seu antigo patrão passar rumo ao trabalho na empresa onde lembrava ter conhecido Ana Lúcia a moça bonita que se tornara comissária e viajara há 3 anos para todos os lugares do mundo com exceção do lugar onde ele se encontrava que era um lugar sujo e úmido e paralisado pela policial ação que mandava todas as crianças entrarem no escuro carro que os levou até o matagal no qual os corpos foram desovados.

Ao lado da desova um rato passava rumo à casa do homem que operava milagres no subsolo de seu choro enquanto gozava o último sêmen luminoso de seu caos e pensava: de que adianta ser o homem que goza ou a mulher que domina ou a senhora que assassina gatos ou um dos rotos retirantes ou um jovem que vê a lua ou um veterano de guerra suicida ou o filho que fala pai ou o santo homem que desentorta pernas ou o mendigo limpador de calçadas ou o patrão de Ana Lúcia ou Ana Lúcia ou o policial que desova ou a criança desovada se os ratos sempre rumariam para sua casa?

Foi então que percebeu seu próprio ruído.