Edição 5

Deus Ex-Machina

Eduardo Lacerda

para Rogério Fernandes

Pouco me importa

que a chuva me molhe

se estou à calçada.

Mas se estou à calçada

(a um passo deste fluxo,

que me separa do outro

lado, dessa enxurrada

que é de lama, mistura

de água e desta gente

de barro)

é por que eu não misturo.

E, se por descuido,

um Deus ex machina ,

por simples desvio

do buraco ou da lombada

alterar o meu destino,

eu sigo em frente, parado.

Pois ainda que grite

: filho-da-puta!

ao súdito sem culpa

nada secará a água

que

não veio da chuva.