Onde terminam as preces
no final de 2005 Versículo 12 Eis que me vejo pisando em terras sem lei. Na fronteira exata entre o céu e a insanidade. Caminhando por escombros que exalam um forte odor de fezes humanas. Debaixo do céu da parte arruinada e obscura desta poderosa megalópole.
Eis meu reencontro com lugares onde as perversões mais hediondas habitam. Onde a violência é a única linguagem: a linguagem das ruas. Este é meu perigoso vagar, por ruas onde o Jazz não existe, mendigos descansam em paz e prostitutas psicóticas de topless te ameaçam com navalhas enferrujadas.[meu pensamento diz] É cara, onde você foi parar?
Reza pra ter asfalto suficiente pra te levar até aquele retângulo de luz, no final desse túnel interditado pela C.E.T.. Versículo 13 Tentando não cair no fundo daquele poço urbano, continuei andando sentido “qualquer lugar de São Paulo”, sob as trevas de um túnel escavado por minhocas de aço terceirizadas pela prefeitura.
Avistei adiante, dois travécos em formato de vultos sombrios, que faziam o túnel de motel e o asfalto de cama. Um deles perguntou se eu queria entrar no “trenzinho”, mas apenas respondi com mofa: “Meu vagão é de ouro e não o coloco em qualquer merda de trilho arrombado, ô arrombado!”.
Fiquei aliviado por saber que os vultos eram apenas duas garotas-virgula, troca-troqueando no asfalto frio, e não demônios que anunciariam minha hora e me levariam para o inferno (como eu pensava) – a família brasileira que passa de carro por ali durante o dia, nem deve imaginar que durante as madrugadas, aquele solo torna-se palco de orgias depravadas.
Tudo o que sei é que as madrugadas quentes, na terra da garoa (a Garoa Land), ouriçam o que há de mais fétido nas almas decompostas que perambulam sobre as calçadas da capital (isto é fato). Mas nem ligo. Pois a noite é minha, a festa é nossa, a cidade é de todos e nada neste esgoto a céu aberto me incomoda.
Nada. Paulistânia - Capitulo 2 Versículo 1 Durante aquela madrugada, no canteiro central do chamado “minhocão”, a fumaça nos elevava e ia de encontro ao concreto dos prédios sem alma e depois se perdia na densa atmosfera. 1:23 da matina de um sábado quente, que encerrava o último dia do horário brasileiro de verão.
Mochilas no chão. Suor na testa. Fogo na bomba e milhares de janelinhas que viam a cidade ser nossa enquanto nos “elevávamos”. E, ali, da baixa mureta, pode-se ver a luxúria equilibrando-se em saltos agulha e expondo sua carne apetitosa, nas vitrines prostituídas da calçada da infâmia.
– Preços a negociar (Nas ruas da indústria informal do prazer, deus é sim, uma nota de cem) -. Deus abençoe estas pobres almas pecaminosas, que sobrevivem num lugar onde as preces não são ouvidas simplesmente porque elas nunca começam. Elas já nascem mortas.
As preces foram abortadas com pedaços de cabides intra-uterinos e o feto daquela noite que um dia seria uma criança, transborda lentamente em alguma privada de motel.