Edição 5

AVC

Mão Branca

aventura cotidiana A dupla de rapazes, não muito aguerridos, conversava no corredor do supermercado. Passei com meu carrinho olhando os produtos de limpeza. - Olha. – Sibilou um. - Hum. – Gemeu o outro. – Esse ai deve ser uma delícia. Fingi que não era comigo.

De longe, olhei de soslaio. Percebi que debatiam sobre o papel higiênico, qual o mais adequado aos sensíveis popôs. Fiquei quase deprimido. Não se referiam como delícia a mim e sim a algum papel de bunda bem suave. Ou áspero, sei lá, vai entender!? Entre chateado e aliviado, resolvi conferir o peso.

85 kg. Leve para minha categoria. Sai satisfeito com os exercícios. Atrás de mim haviam dois brutamontes com tatuagens e camisas de academia de luta. O menor pesou 115. Uns 22 anos, orelha de repolho e casca de soco nos punhos. Antes do maior subir na balança, cai fora para não dar bandeira, sei lá, são doidos esses lutadores.

- Tá vendo essas crianças. – Apontei com o nariz os sujeitos. – São lutadores treinados. Jiu-jitsu e boxe, acho. Eu não daria conta. – Expliquei para minha mulher. Como todo homem, avalio os outros para saber quem cairia dentro, quero dizer, quem seria capaz de me superar numa briga mano-a-mano.

Bonito isso. A maneira mais justa de resolver uma pendenga entre fulanos, sem depender de hipócritas leis nem falsos conceitos. Somente uma porrada entre dois humanos adultos e saudáveis. Quem vencer é o correto. E sempre que analiso meus adversários explico para ela a quem devo temer e o porquê.

- Você pega o peixe? – Respondeu. - Xá comigo. Fui ao peixeiro. Escolhi um salmão e entrei na fila para limpá-lo. Cutuquei olhos-de-peixe durante os quinze minutos da espera. Duas mulheres apareceram e perguntaram se havia tambaqui. - Tá bem aqui. – Mostrou o peixeiro.

Sorri com a rima urbana. - Limpe este para mim. – Pediu a mais alta. - Licença. - Interrompi. Olharam-me. - As senhoras estavam na fila? A mais alta franziu o cenho. A outra se preparou para dar no pé. - Não havia fila quando cheguei. – Respondeu e colocou seu peixe na balança.

- A senhora é que não percebeu. – Tirei o peixe e o soltei no balcão. – Mas há uma fila gigantesca. – Apontei as quinze pessoas atrás de mim. - Você não pode falar comigo assim. – Gritou. – Nunca vi isso na minha vida. Coloquei meu salmão na balança. - Nunca viu pois não observa.

– Fiz o sorriso de adeus e virei-me. O peixeiro, sem graça, começou a limpeza. - Você me ofendeu! – Rosnou a mulher. – Quem é você para falar assim comigo? - Eu não sou ninguém. – Comentei em voz baixa. – Mas você não vai entrar na frente de ninguém. – E ri com os olhos.

- Isso não vai ficar assim! Assim, assim, ela só fala isso? – pensei. - Vai levar a carcaça? – Perguntou o peixeiro. - Claro. – Gritei. – Vou fazer um pirão. Encontrei minha esposa no caixa, pagamos e fomos para o carro. Eu contava a confusão com a barraqueira.

Guardamos as compras na mala e entramos. - Hei, você. Olhei pelo retrovisor. Era a mulher. Enfurecida. Queria revanche. Atrás dela duas pessoas. - Meus irmãos vão te mostrar quem furou a fila. – Afirmou em alto e bom tom. Foquei os olhos para avaliar os irmãos.

Instintivamente pedia para que mais uma das coincidências cósmicas não acontecesse, porém, era quase inevitável. Os irmãos da mulher eram os dois brutamontes. A Força havia me avisado, mas desconsiderei, não sou um bom Jedi para ler seus sinais. Era o momento de acelerar o carro, arranhar a lateral mas fugir incólume e satisfeito, porém eu tava duro e pensei: oras, um olho roxo sara num instante.

Nem precisarei gastar uma baba com o mecânico. Retirei os óculos e o entreguei para minha mulher. - Já sabe, né? – Ela afirmou com a cabeça. Já havíamos combinado que nas lutas ela não se poria em perigo e, conseqüentemente, eu ficaria livre para me concentrar no inimigo.

Sai do carro com as mãos para cima e choraminguei. - Não, não. Por favor, sem violência. O maior dos irmãos, mais de oito arrobas, sorriu. Viu em mim um covarde. Sabia que é mais fácil bater num covarde. A mulher também gostou. Conhecia bem os irmãos, talvez até por isso fosse tão abusada.

Cheguei no de oito arrobas e soquei sua glote. Ele não esperava o golpe. Virei-me para chutar o saco do outro. Acertei o pontapé, mas ele também acertou um soco. Um, apenas. E foi tudo o que vi. Acordei com minha mulher me puxando pela camisa. - Anda.

– Ela disse. – Levanta logo. – Apontou para o lado. O das arrobas já conseguia respirar mas o irmão ainda estava de joelhos segurando o saco. A mulher gritava para eles me pegarem. - Paguei o peixe. – Resmunguei. - O que eu faço? – Perguntou, assustada com o sangue que minava do meu nariz.

- Leve minha carcaça para o carro. – Apoiei o braço em seu ombro. – Tô me sentindo um pirão. Com a musculatura anabolizada pelo medo, ela me arrastou até o carro e caímos fora. Estanquei o sangue do nariz e limpei o rosto com o papel higiênico que sempre tenho no carro.

Minha mulher reclamava que eu arrumava confusão em todo lugar. Ela parou num sinal. Tentei arrumar os cabelos olhando-me no retrovisor do passageiro. Havia um pouco de sangue no meu lábio. Passei a língua por cima. Escutei um “psiu” do carro ao lado. Eram os dois rapazes não muito aguerridos.

Sorriam para mim. O motorista enrolava a ponta dos cabelos. - Hei. - Meu nariz ainda sangrava. – Vocês têm papel higiênico? – Mostrei um pedaço rubro. – O meu acabou. – Uma gota desceu do meu nariz para reforçar o pedido. - C-claro. – Disse o motorista.

Todos se assustam com sangue. O passageiro virou-se para o banco de trás, em segundos surgiu com um rolo de papel e me entregou. - Pode ficar. Agradeci. Tirei um pedaço e enfiei no nariz. Senti a suavidade do papel de qualidade excepcional. Era sem perfume.

- Querida, você sabia – ela já me olhou desconfiada – que os homossexuais usam papel higiênico suave para não sofrer um AVC? Ela não perguntou o motivo. Não pagaria o mico. Mas encerrei: - Sim, AVC. Acidente vascular no cu.