Edição 5

Dois filmes e um livro

Marcelo Ariel

future inside my head Autor Marcelo Ariel 1. THE FUTURE INSIDE MY HEAD... Aí fechei o poesias Completas do Sebastião Uchôa Leite (Cosac & naif)..Que eu havia comprado no camelô e dei um bico no livro que voou longe e caiu nos escombros da Igreja Universal do Reino de Deus da Avenida Ana Costa em Santos..( Ela havia sido atingida por um míssil do Comando geral).Voltei ao camelô e pedi para baixar um livro com todos os ensaios do Evaldo Coutinho...e ele falou..capa dura ou capa mole...Capa dura eu respondi..Ah, vou querer também o último disco do João Gilberto só com canções do Cartola..Quanto fica?

Dez reais...ele falou...Aí eu enfiei amão no bolso e tirei uma nota de R$30 com a estampa do Vladimir Herzog, paguei peguei tudo e o troco e fui ao cinema ver um sessão dupla de R$3 com 'Viagem ao fundo da noite' do Eric Rohmer e 'A Divina Comédia' do Manoel de Oliveira...Todos os dois mil lugares estavam silenciosamente ocupados..Tive de ir para sala estádio ao lado e para minha sorte estavam exibindo o 'Berlim Alexanderplatz' com café da manhã grátis...

na saída passei nos escombros e peguei o Poesias Completas do Uchôa Leite de volta...Ele estava intacto em uma pilha de Bíblias. 2. A NECESSIDADE : Sinto a necessidade de viver, cada vez mais o real como um mito. Principalmente quando me encontro dentro dele com aquilo que Wallace Stevens chamou de : " A ordem violenta de uma desordem e a desordem de uma ordem." E Stevens, uma versão melhorada de T.S.

Eliot , completa : " As duas são uma só." Isso é um fato para alguém como eu, que foi educado na bárbarie ( RUA) e entrou na civilização ( BIBLIOTECA) guiado pelas mãos do Orlando, meu irmão genial e esquizofrênico. ( As duas coisas são uma só?) . Meu estoicismo ensaiado devo a minha mãe , que citava Sêneca sem ter lido nada além da Bíblia do João Ferreira de Almeida.

Álias, devo a Bíblia minha primeira "iluminação"...Aos 14 anos,um sonho acordado com a cabeça de Holofernes descolando do corpo durante o orgasmo de Judite. Me parece que o autor de Hamlet também devia seu " Estilo" ou "iluminações" a uma versão da Bíblia, no caso, a do Rei James .

Estilo, iluminação ou surto para mim são a mesma coisa. ( VER BARTHES). Sei que isso pode soar como uma simplificação dos diabos e é isso mesmo. Aos 11 li os romances do Emílio Salgari, o Julio Verne italiano e os do Lobato, hoje considero o Lobato melhor do que os dois.

( E DAÍ?). Escrever algo genial em Português equivale a descobrir um poço de petróleo em Marte. Temos vários escritores geniais em atividade e isso não muda nada, simbolicamente é como a entrada do Brasil no primeiro mundo, um foda-se dito em voz alta por um exército de esqueletos fosforescentes que ganham R$300 por mês.

( É mais do que eu ganho com meu estoicismo ensaiado). Chega...O Salgari se matou e o Lobato não...O Julio verne e o Stevens também não se mataram,para mim todos eram suiçidas falhados e a necessidade de viver o real se impôs a partir de dentro, como uma coragem...Sinto uma ternura infinita por todos os suiçidas que não se matam...O não-suiçídio nasce da necessidade de viver o mito do real.

3. HOTEL BAUDELAIRE: O que é criado pelo espírito é mais vivo que a matéria...Mas em nossa época o espírito está doente, ele sofre de arte e prostituição ou seja de amor...mais cedo ou mais tarde ele será derrotado pela ferocidade ? Creio que não...Assim como a música perfura o espaço e atravessa o tempo, o espírito agirá como um ácido sobre tudo o que não for muito abstrato...

E a cultura das drogas? Buracos finos no mundo do espírito cavados por gerações de cigarras...Hoje entregar-se a Satã é igual a nada, é o mesmo que fumar um cigarro ou tomar um café...O mesmo triunfo da vaporização e centralização do eu que está em tudo...Como o crime ou a glória pessoal, que não é mais do que o resultado da acomodação de um espírito à imbecilidade de um povo..A ferocidade dos homens é engenhosa e indestrutível e só a estupidez pode ser comparada a ela porque é absoluta...A ferocidade nos une mais do que o amor, que não passa de um jogo par escondê-la...

Quem será capaz de sair de si mesmo trepar com esse fantasma invisível ?...A incapacidade de sair de si é o que faz o artista...Por isso quando ele fala não existe o outro lado...Por isso esse fantasma se dissolve no vento ..."