Edição 5

Ajoelhou... tem que rezar?

Nicole Louise

é o povo que diz que Deus tudo sabe e tudo vê? Pois então, teoricamente, ninguém precisaria ir até a “casa dele” pra contar pra ele o que ele já sabe. É ou não é? Tô falando isso porque toda vez que paro pra pensar no assunto acabo acreditando mais e mais que a igreja não é a casa de Deus, mas sim daqueles que querem pedir desculpas a ele, afinal de contas são eles que a freqüentam...

Deus não está em todo lugar? Então por que raios não pedir desculpas a ele no aconchego de nossa casa? E por que não em pé ou deitado? Por que tem que ser ajoelhado, segurando um terço, ou a bíblia? Ahhh! É o tal do arrependimento, do sacrifício, da penitência, né?

Sei... Sei também que não faz o menor sentido pra mim. Qual é a razão de as pessoas ainda serem (culturalmente, moralmente, socialmente) obrigadas a irem à igreja se confessar em pleno século XXI? Por que se dar ao trabalho de se ajoelhar, chorar, rezar e pedir perdão pra Deus diante de uma estátua, imagem, padre ou pastor se for só pra seguir uma tradição mecanicamente ensinada geração após geração e não para realmente refletir sobre o que foi feito?

Pra depois sair de lá fazendo ou pensando em fazer tudo de novo... só se for. A merda não já tá feita? Pois então... Basta se arrepender e não fazer de novo, ora, ora, ora! Acho desnecessário esse ritual todo... porque arrependimento que se preze tem que ser sincero, tem que vir lá do fundo da alma, do coração, da mente, ou seja lá de onde vier...

O arrependimento tem que ser pra valer! Guiado pela consciência que tem que berrar: “Você errou feio seu/sua verme, trate de nunca mais fazer isso novamente, tá ouvindo???” pra gente criar vergonha na cara e não fazer de novo mesmo. E pro caso do erro não ter sido de propósito: não tem problema, o berro vai servir pra gente ficar mais atento, manter os olhos abertos pro que acontece à nossa volta.

E esse em volta pode ser qualquer lugar. Ninguém precisa se sentir obrigado a se debulhar e implorar por perdão dentro de uma igreja, segurando isso ou aquilo, nessa posição ou naquela, durante não sei quantos minutos ou horas, achando que isso vai resolver tudo e que todas as conseqüências do “pecado” cometido serão aliviadas como num passe misericordioso da mágica divina.

Tem gente que fala que se confessa por causa do tal do Juízo final (???). Andei catando conceitos e depoimentos de videntes por aí – já que não há registros de nenhum Juízo final na História da humanidade e a cerimônia é descrita na base do “achômetro”– e pelo que entendi é mais ou menos assim ó: num dia (que não vai demorar a chegar) Deus enviará seu filho, Jesus, à terra numa nuvem em forma de escada que o trará ao nosso humilde mundo (ninguém sabe onde exatamente ele “pousará”, mas isso não importa porque ele trará anjos tradutores de todos os idiomas na comitiva dele).

Neste fatídico dia, nós, pobres mortais, seremos individualmente julgados pelas ações executadas ao longo dos anos de existência terrena: quem tiver saldo positivo no placar “acertos x erros” poderá passar para o lado esquerdo de Jesus e terá lugar na nuvem escada/elevador que garante o acesso direto e rápido a um lote no céu; os réus que forem considerados mais culpados que inocentes serão imediatamente enviados para o mármore do inferno onde desfrutarão da companhia do Belzebu dia e noite, sem descanso, e lá se arrependerão amargamente de não terem sido bonzinhos, assim como de não terem se arrependido de seus pecados, em local sagrado, diante de um padre/pastor representante de Deus, enquanto era tempo.

Ah! E saiba que alegar que o arrependimento aconteceu, mas foi caseiro, não vai colar viu? Porque parece que Jesus tem um acervo de vídeos da rotina humana que é bem maior que o acervo do You Tube e basta um “play” pra ele saber quem está mentindo ou não...

Agora eu fico aqui pensando: será que é justo, no dia do tal do juízo final, Deus só considerar como arrependimento o que confessamos dentro da casa dele? – porque se isso for justiça acho melhor eu providenciar o envio de um e-mail aos céus: “ Senhor, Venho, respeitosamente, por meio deste breve e-mail, solicitar um mapa que indique as propriedades que são consideras como suas, de fato, de acordo com as leis divinas, para que eu possa me dirigir assim como indicar o caminho das mesmas a meus amigos, parentes e conhecidos, a fim de evitar a superlotação no inferno.

Grata desde já, Heterocéfala PS: para quem não tem apego material até que o Senhor tem muitas casas em seu nome... ops! ” Que eu acho tudo isso um absurdo é um fato, mas eu não descarto a possibilidade de que toda essa minha ladainha seja só uma maneira que encontrei de ajudar a mim mesma a encarar o fato de que eu nunca me confessei (apesar dos apelos da Madre Superiora e das ameaças de ser expulsa dos colégios de freira onde estudei)...

Tá, tá, tá: eu me rendo e repetirei em alto e bom som: “EU NUNCA ME CONFESSEI”, pelo menos não dentro de uma igreja, ajoelhada e em frente a outra pessoa tão humana, ou talvez até menos humana que eu... Mas ó Seu Deus, isso é só um detalhe, viu? Só uma questão de padrão que pode ser ignorada, não pode?

O mais importante eu fiz e posso provar!!! É só pedir pro seu arquivista de vídeos dar uma procurada aí na fita da minha vida que o senhor vai ver que já chorei muito, já pedi desculpas, já me arrependi pra burro, muito mesmo, mas tudo no aconchego do meu quarto, ou da minha sala, ou em algum saguão de hotel ou poltrona de avião...

Ok, ok, eu sou folgada, gosto de conforto, confesso, ou melhor, reconheço, porque confessar mesmo eu não me confesso não, mas isso não é pecado não, né Seu Deus?