Edição 5

Recado implícito

Paula Klaus

lugar onde eu poderia estar, com pessoas que não são tão agradáveis. Os pensamentos fundem idéias mirabolantes. O homem honesto bate à porta sem sucesso. As mulheres pedem por mais uma chance, por mais uma noite, por menos indelicadezas. Um homem bate à minha porta e esse parece contente, não quero atendê-lo, deixar que mude minhas coisas de lugar, que tire meus livros da estante e rubrique minha assinatura nas cartas.

O medo é só parte de tudo que se instala dentro de mim. E ele é a maior parte de tudo. Não existe pecado, crime ou penitência, tudo é poesia hoje. Os ruídos se encarregam de empurrar o tempo. Tempo este que não dá trégua, que não esbarra mas atropela sonhos, crenças e amores.

Se esperar pouco mais, verá quantas voltas já deu em torno de si mesmo sem chegar a lugar algum. Suicidas de toda sorte, assassinos sem escrúpulos e prostitutas com seus sonhos carregados, todos sabem que não existe um caminho a seguir, apenas seguem numa estrada qualquer.

E há ainda o poeta, que nos versos reinventa a história e explora situações abrindo aqui e acolá novas feridas. Dei de cara com sujeitos pirronicos que de tanto duvidarem já não sabem ao certo quem são. Percebo que os olhares estão cada vez mais distantes, como se já não fossem os mesmos de toda vida.

Me deito em frases decoradas, ensaiadas, esperando que o mesmo dia recomece. Reinvento as horas e escolho meus algozes, não tenho nada mais que medo e nenhum carinho e lembrar. Tenho essa trave no meu olho, também não escolho meus amores.