1001 utilidades
de um jeito invasor, enquanto velozmente procurei refletir sobre o significado pessoal que ela quiçá estivesse imprimindo naquele apodo momentâneo: bordão de sucesso de um esfregão de aço lembram? Mais tarde eu ficava pensando e repensando no acento de sua voz doce, em um fino restaurante perto da Consolação station.
Agora estou pensando nisso. O que será que ela quis dizer com aquilo? Às vezes adoro a companhia de celebridades, mas o olhar da Maitê Proença não é perdido e quebrado como de boi. Seu glauco vislumbre é de um respeito que procura não muito penetrar e se permite ser sereno perante os outros.
Fora isso ela é uma coroa muito boa, enxuta, pele bem cuidada. Usava seus já manjados cabelos semi-curtos com luzes, e raízes negras talvez para dar um toque de personalidade a seu naipe de européia. De fato e de perto uma mulher muito charmosa. Deixei meu e-mail e meu telefone mas até hoje ela não entrou em contato.
Gostei de seu papo numa entrevista no Jô, ao falar de suas viagens pelo mundo ela não falou da ayahuasca que ela outrora venerava fervorosamente, nem daquelas tretas dela respeitar a luta do Sting pela Amazônia e pelos índios. Não sei porquê essa mulher deixou lembranças antes de nos conhecermos por gente.
Uma vez ela viu uma luz laranja que entrou na barriga dela, segundo um relato esotérico e meio enigmático sobre quando sua filha ainda não era concebida. Ela é uma dessas pessoas que desperta simpatia à distância de uma maneira peculiar, sem menosprezar a inteligência alheia.
Sei que ela é escritora, que já posou nua duas vezes, e sei que o Sassá Mutema já a fez pensar em sua naquela época atribulada vida pessoal. Em cena como a professorinha Crotirde ela deixou sua primeira impressão no meu coração. Tentei sentir o doce cheiro dos açougues que lembram a infância na terra das tempestades de verão, mas foram outros fatores que contribuiram para a reprodução de um odor nostálgico como o que ela descreveu numa coluna de uma revista de sua emissora.
Aquariana talentosa, 100 anos à frente, estava com suas eventuais quatro amigas de mesa, todas animadas conversando sobre sei lá o quê que a fazia revirar a cabeça teatralmente perante as mini-problemáticas apresentadas a seu semblante, destacado por suas esmeraldas sob sombrancelhas negras e semi-grossas.
Ela fazia esse percurso condescendentemente compreensivo que acompanhei de longe, porém eles se tornaram conscientes da minha presença e cessaram. Como um Proteu paralizado em meio às idéias baixo-atmosféricas ela tentou se desfazer da minha atenção, embora não me visse.
Mas cuidadosamente eu me aproximei mais e mais. Já por cima do que ocorria, as amigas bebiam vinho como antas que comemoram apenas com a ajuda de algum erro alheio. Sem dar atenção a essa incômoda companhia finalmente cheguei: oferecí meu produto e ela quis pagar à mais e à vista.
Oferecí mais, não queria sair do encontro sem ter sido justo da minha parte. Nem mesmo no ápice da conversa: ela não mostrou os dentes em nenhum momento. Quando disse que eu era 1001 utilidades eu não me agüentei e mostrei os meus, mas não foi forçado, foi num momento de fraqueza entende?
Me intriga saber se ela entendeu o que os meus olhos queriam dizer enquanto eu acavalava minha alegria espontânea. Ela continuou me mirando, respeitosa, iluminada por um lusco-fusco ambiente que lhe caía bem no meio de uma escuridão comfortavelmente dominada.
Foi uma das únicas vezes que ví uma mulher aberta na minha frente, não tive a sensação de estar conhecendo uma parede a mais na minha vida. Maitê me fez querer fuder com ela. Se eu conhecesse melhor seu trabalho, quem sabe? Se ela é dessas que gosta de ser profissionalmente elogiada, talvez eu me desse bem se não ficasse envergonhado.
Sei que é negra a região de seus mamilos, não me lembro muito do resto, vou procurar pesquisar. Acho que ela é uma dessas brancas que diz ser negra por dentro, a Vera Fisher uma vez disse que tinha o coração negro. Bom, talvez atores sejam 1001 utilidades, escrevam para mostrar que ainda têm cérebro e posem nus pra ganhar dinheiro.
Sei que a Maitê já namorou um cara mais novo, o Sérgio Marone, na época que ela fazia Malhação com ele. Então é isso ae Maitê, um dia nos trombamos por ae, e que eu possa olhar nos seus olhos de novo.