Edição 6

Ao escuro

Eduardo Lacerda

Aquele homem batera
todo dia à minha porta
sem nunca encontrar:

– nada – / da janela
do sobrado
meus olhos
de soslaio,

poderiam ir ao fundo
da própria ameaça,

salvá-los.

(meus brinquedos não
eram tão velhos para
seguir em sua viagem

sozinhos).

Mas não iam ao fundo,
paravam à margem,
chapinhavam o medo
que nadará o homem
que nada a criança.

(Tornando-se homem
planeja a vingança
um ataque à ameaça) /

Aquele velho baterá
todo dia à minha casa,
e só encontrará nada.

E dizem que
não vejo que o velho
passa fome:

O homem do saco
leva hoje
desaforo para casa.