Edição 6

Quarto

Gustavo Soares de Lima

de Lima Madrugada, um vento estúpido invade o quarto pelo vão da janela mal feita, sei que tenho uma prova a fazer logo mais, mas nem me importa, não paro de pensar em você um segundo sequer, ando pela casa, na garagem um cigarro a cada dez minutos, ligo o computador, mas nada além da sua face me vem à cabeça, inspiração que dói, corrói, machuca, dedo na pele viva, navalha na nuca; os cigarros se aceleram, café, perdi a conta das vezes que abri a geladeira, sem fome, torno ao quarto, o som ambiente mistura vento e insetos, grilo, coruja, penumbra, o relógio não se altera, o tempo parece ter parado, lavar a cara não resolve, no espelho um olhar frio, distante, apago a luz e volto a tentar; besteira, em segundos volto a andar pela casa, lembrando de quando você andava por essas bandas, fazendo parte da minha laia, dormindo na minha cama, estrado saltado, dores musculares, horas que voavam, boca na pele, unha que passeava, fincada abria o apetite, sussurros, gemidos, confissões joviais, dentes na orelha, arrepio, ponto fraco, me entrego às lembranças, uma lágrima tenta sair, engulo; respiro fundo, me viro ao teto, bolas coloridas se contrapõem umas sobre as outras, mistura bizarra, algumas em movimentos circulares, outras formam desenhos como nuvens, figuras estranhas, geométricas, animais, personagens; retorno a mim, mãos no rosto, as bolas desaparecem aos poucos, levanto agora do sofá da sala, acendo mais um cigarro, empapuço, o cachorro roça a perna, lambe os dedos, nada para dar a ele, isqueiro no escuro parece comida, inocência natural, logo foi embora dormir, observei atentamente o relaxar da sua cabeça sobre as patas, um suspiro, breve olhar e sono em fim; começo a contar os passos, como carneiros podem funcionar, do banheiro à cozinha são sete no total, sento, observo a pia, aquela torneira que continua vazando, cinco segundos a cada pingo, setecentos e vinte pingos por hora, já é quase dia, um galo cantando na paisagem rural anuncia que a noite está chegando ao fim, no máximo mais duas horas, o suficiente para enjoar dos pingos da torneira, que continua vazando.

Sei que prometi não escrever mais sobre ti, mas como em todo resto, perdi, fracassei, errei e continuo errando, sem parabéns por isto, sem consolo ou tapa nas costas, apenas perdi, sem o corpo, sem o cheiro, na falta da fala que me cala, pela admiração que me laçou e compadeceu o antes duro, que agora sente a derrota por nem ao mesmo ter feito do não um fim, nem nisto fui capaz, cisco na retina, cabelo no prato, incomodando como as baratas, que correm, dão asco e nojo; lamento, não desejava que fosse assim, queria eu que tudo fosse diferente, que pudéssemos ser felizes, que os planos de casar, ter filhos, conhecer o mundo, fossem reais, ao contrário da sua decepção, lamento, eu não queria que fosse assim, e sei que choramingar não resolverá a sua angústia, boa menina, quer tudo sempre resolvido, sem pendências, sem motivos para sofrimento, invejo-te.

Mas ferro torto não se endireita na água fria, desculpe-me, não dá para prometer o que não se pode cumprir, tem que ser no fogo, mas me esforço, tomo mais um café, acendo outro cigarro e decidido cerro a língua entre molares e caninos, procuro um livro na estante, clássicos são sempre avassaladores, impossível ficar indiferente, não há como não se render à um Joyce, Kafka, Nassar...

Maldito Drummond! Não sei porque já não doei este livro, deve ser porque nem meu é, ainda bem que não preciso mais pegá-los na sua casa, alias, desde o dia em que me pediu para isto fazer, senti que era o começo do fim, seus olhos sempre foram límpidos demais, mas fingi não perceber, não quis acreditar, o término era inaceitável, falacéria educação, índio de bons costumes, só aceita dizer sim, remói o predito na lua sozinho, egonomiza a desfeita, come no chão sujo os restos e diz muito obrigado, cultura de meio, felicidade geneticamente alicerçada, fraqueza exposta, lamento mais uma vez; o cigarro acabou, nada mais cruel para um viciado, ligo o carro, espero um segundo, franca impressão de que você irá abrir o portão, a lágrima insiste em querer sair, abro a janela, permito a brisa da noite entrar e me preencher, saio, pelo caminho dois ou três carros cruzam por mim, olho no espelho, quem dera fosse você, como vezes de costume indo para meu quarto nesta hora, mas não, nem conhecidos eram, no posto de gasolina 24 horas peço um Free azul, maço, mais um Halls por favor, retorno, no caminho lembro do dia em que ficamos deitados na grama do parque próximo a minha casa, não perdi tempo, mudei o rumo, confesso que ver o mesmo local às escuras remete à novas sensações, abro os braços, o som do rio, o cheiro do mato, não é preciso fechar os olhos para te ver, sorrindo, maior que eu a me abraçar, me tomando no seu peito, me chamando de lindo.

A dor inenarrável de perceber que a imagem não passava de ilusão é o preço que eu mesmo pago pelo caminho escolhido, garoa na volta e o asfalto em sua pequenez malmente acalanta o pneu que agora é asa, quando eu mais preciso da morte, ela escapa, se esconde, querendo maltratar mais ainda, egoísta, sorrateira, fugitiva, lisa, traiçoeira.

Nem ao menos fechei o portão, ofegante eu entro, o cachorro já não dormia mais, olhar confuso, passo pela cozinha, a torneira à pingar, sete passos até o banheiro, olhos estralados, falta meia hora, passos pesados até o quarto, no corredor já sinto o vento da janela mal feita, não preciso ligar o computador, abro uma janela nova e começo a escrever, vou escrevendo, escrevendo, escrevendo, a lágrima agora é companheira, escrevo até o calmante do porta luvas dar efeito, logo mais uma prova, mas continuo pensando em você, incessantemente, em você, pensando em você...