Edição 6

Ainda sob o efeito do homem

Larissa Marques

ainda sob o efeito do homem cala-se em devoção venera-o “Oh, falo de ouro! Oh, servo das videiras!” se o tempo parasse se a vida sucumbisse mas o tempo vai lento, beirando ao bento e a vida lateja em seus sexos oram e contemplam esse instante eterno mas há luta calada há sentimento velado sobrevivente ferido, de inúmeras batalhas rasgado em seu regalo atingido visgo aflito e despretensioso quase iluminado acometido de uma dor pulsante que fere a alma errante que já não quer se defender abre tuas pernas em sinal de voto vencido e entrega-se ao prazer terminal que cala a terra assola as indagações e espalha-se sobre os dois corpos invasor e invadido dilaceram-se incondicionalmente as horas não vencem nada as diferenças não separam os eternos são independentes, dicotômicos e seus um cresce frutificado, o outro o colhe em uvas mas a um terceiro é dado o privilégio do fruto Os mais preciosos e maduros permitem-se ao chão entregam-se à boca serva que se delicia com o estalo proibido um explode na entrega de sua essência, o outro saboreia-a despudoradamente inconsequentes alimentam-se do gozo visceral quase secreto, quase em fuga um sussurra quase que para ser ouvido, o outro ouve quase que para crer ambos refastelam-se num elo infinito no beijo mais profundo e mais silencioso que ecoa em seus olhos e num poente de doação finita final.