Edição 6

Eu não fazia nada

Lindsey Rocha

eu não fazia nada, e eles me amavam. amavam a forma entrecortada do meu ser, sem as palavras que um dia escrevi. nada. quase nada do que pode meu silêncio desaguar. mas eles, mesmo assim, me amavam. não foram muitos. foram, enfim, ignorantes das pautas que eu oferecia e que, em minha companhia, esperavam a transparência das linhas tortas tobogãs risadas cachecóis caixinhas ímãs de desapego para sempre mais...

amavam o que nem sei, posto que os caleidoscópios que viam eram o esboço de um desenho que nunca estampei. então, um dia, saí de casa inteira miçanga, índia velha no corpo de moça, balançando cores fortes para uns olhos de lince escondidos no meio do verde.

lua cheia de mim mais nova minguando e, depois, crescendo para cadernos de música. aí, vi minhas páginas rasgadas na palma daqueles olhos, que as comia sem saliva sem dente goela abaixo ânsia. nem corretivo. nem caligrafia. então, a capa do meu amor, reprodutor de folhas brancas - nervuras de um silêncio que se engole a seco - brota cartão postal; menos que isso, email...

vi a mão daqueles olhos jamais desejando seios. vi as pernas daquele olhar chutar bolinhas do meu papel. vi minha biblioteca queimando embaixo da escada. ouvi um homem gritando à alma de uma mulher e senti uma labareda na garganta.