Meditações enlatadas
adianta tentar se esconder, fugir, fingir que não é com você. O que se quer é glamour, passeios e champagne. Ou ao menos um bom saldo na conta bancária. Rotina veia-monetária. Você sempre vai cair nesse circuito. É a lei da Selva de Pedra. Esfolar calcanhares todas as manhãs.
Sejam nubladas, para um bom livro. Ensolaradas, passeio no parque. Fluxos capitalistas, que não sei por quê. Nem desde quando foi implantado como verdade a ser regida e seguida. Acordo todas as manhãs exatamente às 06:15. Abro os olhos depois do banho.
Converso só após o café preto. E observo. Observo, sempre. Seria um valor de interiorana? Reparar e até, às vezes, sentir o peso dos demais? Até mais, saborear as alegrias estampadas? Não sei. Sempre foi assim. Há dias que mais. Há dias que menos. Sigo o itinerário do ônibus.
Me faz lembrar da verdade. Ressalta meus sonhos. Me abala sempre com o preço que devo pagar. Com isso, encho sulfites com devaneios. Palavras que acabam se tornando recheio de uma vida errante. Ao adentrar no vácuo metálico, começo a submersão em meus pensamentos mais profundos.
Ambíguos, eu diria. Cada ser que se atreve a passar a catraca subitamente reage ao transtorno obsessivo compulsivo que é ato de depender de transportes coletivos. É muito fácil perceber que de coletivo nesse meio não existe nada. Fico a reparar no timbre das pessoas, muitas vezes mal humoradas com o horário, com o tempo e até mesmo com o nada.
Um estranhamento indefinível invade meu paladar. Me põe de frente com questionamentos que não se questionam, apenas existem. O trânsito segue rebelde, sem dar satisfação. Ele zomba daqueles que buzinam. Que esbravejam. Que proferem palavras insanas e sem razão.
As pessoas esquecem. O ser humano esquece das forças que o rege. Mesmo aqui, sob todo concreto desgastado e abatido. Ele atrai para si um dia carregado, pesado. Doem as costas. "Como não encostar, minha senhora? O busão tá lotado!" E é apenas o primeiro do dia.
Reparo em tudo. Nos mínimos detalhes. Às vezes, consigo, por uma fresta da janela, flagrar algum sorriso maroto que certamente começa a colorir meu dia. Reparo no invólucro que cobre cada pessoinha. Mesmo perdida. Mesmo no coletivo que se prende há uma redoma impermeável.
Elas são capazes de sair só pra escarrarem seu rabujo. E eu. Eu continuo a regar meus sonhos, redescobrindo meus dias. Busco, no mais recôndito do meu eu, as doces e prazerosas lembranças que regaram minha vida. E que continuam a colorir meu caminho. Aproveito, nesse trajeto meditatório, para extrair e abstrair apenas o que irriga minha mente.
Me aprofundo. Nesses limiares, aprendemos a nos conhecer melhor. Não, não vou descer nesse ponto. Fique à vontade.