Príapo
verifica as rodas, a gasolina, o óleo, enfim, cuida em ver se o caminhão aguentará o repuxo para a próxima viagem. Olha ao redor, sem constrangimento. Tivesse alguém olhando, esguicharia, conforme o pretendido. Está apertado. Abre a braguilha. O zíper engancha.
O sangue aponta na glande. Vai até a cabine. Um pano, que não percebe embebido em gasolina, traz mais dor. Vai ao banheiro. Abre o chuveiro. Água quente ferve ainda mais seu grito calado. Eu o observo. Chamam-me de devorador, alguns. Outros, apenas, de narrador.
Quanto a mim, não sei do que chamar-me. Não tenho memória larga. O momento, o que mais me marca. Príapo, após algumas horas, serenadas as angústias corporais, resolve partir. Em minha cabeça, todas as vozes antecipam o que ele fará. Não posso impedir muita coisa.
Tenho a minha hora própria para atuar. Vejo tudo em minha mente. Daqui a pouco, estará aqui. Após passar por duas pontes, na beirada de uma delas, vê alguém pedindo carona. Pára. Uma cabritinha sobe os degraus e se ajeita. Ela lhe agradece. Uma cabritinha bem criada.
Quatro patas sólidas, pêlo luzido e com um cheiro incomum em animaizinhos como ela. Depois de umas duas horas, resolve parar pra ir tirar água dos joelhos. Ela desce junto, mas vai à frente. Ele observa o rebolado animal, o furinho acendendo e apagando.
Entram no mesmo banheiro. Ele, mais que depressa, coloca o membro pra fora. Alívio, quando todo líquido se escoa. Quando vai guardar, um berro sutil povoa o ambiente. A cabra colocara a língua pra fora. Uma língua longa e viscosa. Tão longa que num minuto envolve-lhe o saco escrotal.
Parecia uma puta experiente nos matos do mundo. Ele força a cabeça e o focinho da gulosa, num amplo movimento de ida e volta. Enquanto é engolido, observa o rabo da cabrita num balanço de volúpia. Sente vontade de virá-la, antes que o gozo se cumpra. Porém, ela mesmo oferece-lhe a entrada suculenta.
Todavia, é só Príapo encostar e o banheiro todo se inunda de esperma. Na inundação, a cabritinha morre e sou obrigado a cumprir meu dever. Com uma gilete, rasgo a história em quadrinhos, com todo cuidado, procurando retirar Príapo do papel. Sinto sua dor e dela me alimento, como todos os dias em que reinvento seu retalhar.