Dona Eva
acabado de cair uma daquelas chuvas de fim de tarde. Trânsito carregado e eu ouvindo meu mp3 quando alguém segura minha mão. Tirei um dos fones do ouvido e uma senhora com um pouco de dificuldade de andar perguntou se eu a ajudaria a atravessar a entrada da garagem do shopping.
Disse que sim e avisei para que ela não pisasse nas faixas brancas porque são mais escorregadias. E ela me disse que já sabia disso. Atravessamos a faixa e pedi para que ela segurasse em meu braço que seria mais confortável para ambos. Ela agradeceu e perguntou onde estava indo.
Avenida Consolação, eu disse. Ela me perguntou se eu me incomodaria de acompanhá-la até sua casa, no cruzamento da Avenida Higienópolis com Dona Veridiana, próximo ao Mackenzie. Sem problemas, respondi. E sem problemas fomos nós. Dona Eva é grega e veio para o Brasil há 52 anos.
"Culpa" do marido, engenheiro, que veio para um estágio e acabou empregado numa grande empresa. Ela nunca quis vir para o Brasil. Compreensível. O que faria uma pessoa sair da Europa e vir para o Brasil no meio do século passado. O pai de Dona Eva morreu lutando na 2º Guerra Mundial, quando a Alemanha e a Itália invadiram a Grécia.
Sem pai, ela foi criada pelo irmão, que lhe deu uma surra quando descobriu que ela iria se casar com um de seus amigos, que segundo ela, só ficou amigo para poder ter a desculpa de ir até a casa dela, para que pudessem namorar escondidos. Dona Eva veio com o marido para o Brasil, contrariada, e nunca pensou em abandoná-lo, porque na Grécia eles são bem rigorosos e não era correto ela fazer isso.
Ficou. Teve o primeiro filho e virou brasileira. Hoje os filhos e os netos fizeram o caminho oposto. Foram todos embora do país. Uns nos EUA e outros na Europa. Há nove anos seu marido morreu. Dona Eva quase chora quando fala da falta e da saudade que sente dele.
Aos 85 anos ela mora sozinha e não dirige porque, segundo seus médicos, ela perdeu o reflexo. Há mais de dois anos que não vai nem para a Grécia e nem para os EUA, por conta de problemas de saúde. Passa o tempo andando. Gosta de passar as tardes no shopping conversando e contando um pouco de história.
Está assustada com as coisas que vê pela televisão: as chuvas no Rio de Janeiro, o fogo destruindo tudo na Califórnia e na sua Grécia também. Diz que está tudo escrito no Apocalipse. Não Dona Eva, eu não li o Apocalipse, mas sei do que se trata. Ela volta a falar do marido.
Foram 47 anos juntos e ela sente muita falta dele. Dona Eva, hoje, é muito sozinha. Tão sozinha que não se incomoda de pedir para que um estranho lhe acompanhe até sua casa. Deixo-a poucos metros da portaria do seu prédio e fico olhando Dona Eva. Foi a primeira pessoa que conheci pessoalmente que estava vivendo na Europa durante a 2º Guerra e que ainda por cima perdeu o pai lutando na guerra.
Quando a Europa estava saindo do pesadelo ela veio para cá. Viu JK inaugurar Brasília, tava aqui no golpe de 64, vivenciou toda a ditadura, as Diretas Já, viu Collor surrupiar a poupança de todos, o Plano Real e Lula chegar ao poder. Não é à toa que Dona Eva goste tanto de História e de contá-las também.
Tenho dificuldades de me imaginar com 85 anos e ainda mais com toda aquela disposição. Ela me agradeceu e me pediu para ir ao shopping um dia desses para gente conversar mais um pouco e ela me ensinar a falar grego. A solidão daquela senhora de 85 anos e toda a sua história me passada em cerca de vinte minutos me valeu o dia e sinceramente ainda estou revendo a possibilidade de ir até o shopping ter mais algumas aulas de história, aprender a falar grego e dizer para Dona Eva que ela não pode, com 85 anos, ficar pedindo ajuda pra qualquer estranho que passe pela rua.