Às quatro da matina só Janis gosta de ouvir Hendrix estraçalhar a guitarra
Quando
tou distraído eu olho pro lado. Só quando tou distraído. Vejo os caras
com suas esposas, seus filhos, suas casas, seus automóveis, seus
trabalhos, seus sorrisos margarinas. É aquele momento do dia em que
penso que seria bacana ser uma figura big brother e distribuir
beijinhos pro auditório. Camarada, o lado de cá da trilha é foda. Não
tem asfalto, não tem luz e a pinga tá acabando. Claro que normalmente
prefiro uma cerveja a uma mulher, mas tem dias que a solidão dá
ressaca. Olho pra casa. Vazia. Fujo pra estante, fujo pro aparelho de
som, fujo até mesmo pra tevê porque tem hora que tudo que a gente
precisa é de uma serra pra cortar a grade. Mas é muito tarde. Às
quatro da matina só Janis gosta de ouvir Hendrix estraçalhar a
guitarra. Então a bagaça rola baixinho. Do outro lado da janela mora o
que chamam de felicidade. Olho pra ela toda noite. A distância, eu sei,
mas acabo olhando. O cara chega do trabalho e uma esposa aparece na
porta com um beijo caloroso. Um moleque corre e abraça o pai
trabalhador. Se acontecem murros na fuça durante a manhã não dá pra
saber porque é a hora em que as cortinas são fechadas. Às vezes eu
queria isso. Olhar pro espelho e ver um camarada feliz. Pensar que o
sucesso da peça vai trazer felicidade. Pensar que o beijo da mulher vai
trazer felicidade. Pensar que o sorriso do moleque vai trazer
felicidade. Não rola. Porra, alguma coisa tem que trazer felicidade.
Tem tanta gente passeando pelos parques de mãos dadas, com seus
cachorros, com seus amigos, com suas amantes. Todos parecem felizes.
Juro. Mas não vai ser uma fama caras. Não vai ser aquele puta emprego.
Não vai ser aquela puta mulher. Ou mulher puta, tanto faz. Pensando
bem, uma puta mulher puta. Não vai ser. A estrada é foda e o dead end
não chega nunca. No meio disso se foram os amigos. No meio disso se
foram as mulheres. No meio disso eu saco que não passo de um cara
estranho. Sem assunto e sem querer trocar idéia. Sem querer uma foda
noturna. Sem querer porra alguma. Só tomar umas e deitar. E dormir.
Dormir muito. Mas toca a porra do despertador e percebo que o mundo
ainda tá lá fora, com seu sorriso cínico me convidando prum samba
desafinado. O problema é que começo a pensar em pegar o pandeiro e
entrar na roda. Não é assim que as coisas acontecem?
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