Edição 8

Às quatro da matina só Janis gosta de ouvir Hendrix estraçalhar a guitarra

Cesar Ribeiro

Quando tou distraído eu olho pro lado. Só quando tou distraído. Vejo os caras com suas esposas, seus filhos, suas casas, seus automóveis, seus trabalhos, seus sorrisos margarinas. É aquele momento do dia em que penso que seria bacana ser uma figura big brother e distribuir beijinhos pro auditório. Camarada, o lado de cá da trilha é foda. Não tem asfalto, não tem luz e a pinga tá acabando. Claro que normalmente prefiro uma cerveja a uma mulher, mas tem dias que a solidão dá ressaca. Olho pra casa. Vazia. Fujo pra estante, fujo pro aparelho de som, fujo até mesmo pra tevê porque tem hora que tudo que a gente precisa é de uma serra pra cortar a grade. Mas é muito tarde.  Às quatro da matina só Janis gosta de ouvir Hendrix estraçalhar a guitarra. Então a bagaça rola baixinho. Do outro lado da janela mora o que chamam de felicidade. Olho pra ela toda noite. A distância, eu sei, mas acabo olhando. O cara chega do trabalho e uma esposa aparece na porta com um beijo caloroso. Um moleque corre e abraça o pai trabalhador. Se acontecem murros na fuça durante a manhã não dá pra saber porque é a hora em que as cortinas são fechadas. Às vezes eu queria isso. Olhar pro espelho e ver um camarada feliz. Pensar que o sucesso da peça vai trazer felicidade. Pensar que o beijo da mulher vai trazer felicidade. Pensar que o sorriso do moleque vai trazer felicidade. Não rola. Porra, alguma coisa tem que trazer felicidade. Tem tanta gente passeando pelos parques de mãos dadas, com seus cachorros, com seus amigos, com suas amantes. Todos parecem felizes. Juro. Mas não vai ser uma fama caras. Não vai ser aquele puta emprego. Não vai ser aquela puta mulher. Ou mulher puta, tanto faz. Pensando bem, uma puta mulher puta. Não vai ser. A estrada é foda e o dead end não chega nunca. No meio disso se foram os amigos. No meio disso se foram as mulheres. No meio disso eu saco que não passo de um cara estranho. Sem assunto e sem querer trocar idéia. Sem querer uma foda noturna. Sem querer porra alguma. Só tomar umas e deitar. E dormir. Dormir muito. Mas toca a porra do despertador e percebo que o mundo ainda tá lá fora, com seu sorriso cínico me convidando prum samba desafinado. O problema é que começo a pensar em pegar o pandeiro e entrar na roda. Não é assim que as coisas acontecem?
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