Edição 8

Ponte

Daniel Cavana

Comecei a semana entrando em uma conexão do espaço-tempo. Sentia-me entre dois universos explorando um horizonte de possibilidades. Pensava em uma ponte sobre o mar, no vôo das gaivotas e seu mergulho em queda livre para caçar, enquanto a estrada passava sob meus pés e imaginava a cor do céu refletindo na superfície do mar. Imaginei a ponte à noite, sobre as águas, suas luzes noturnas refletindo sobre as ondas. Num último suspiro outra queda, mais uma vez a queda. O ar passando cada vez mais veloz, nem quente, nem frio, apenas passando. Tudo parecendo tão repentino, fugaz.

Estava a caminho do mangue que se escondia nos remansos do porto. Era de manhã, as nuvens se dissipavam no céu. Eu só tinha que dar mais um passo naquela lama negra do manguezal, apenas mais um passo, depois outro, e mais outro para avançar. O suor cobria meus olhos, ardendo. Todos os sentidos atentos a qualquer sinal de vida, a qualquer rastro ou evidência de sua passagem. Gases com seu odor fétido brotavam a cada passo. Às vezes afundava caindo lentamente rumo a algum lugar. Aquela lama que parecia me sugar para baixo quando eu vacilava, retinha meu corpo como um sonho mau. Caminhei horas atrás de uma garça que caçava. Eu caçava o caçador na natureza.

Lembrei-me de outra ponte, de outra queda, não tão longa. Levando para longe alguém que estava longe. Senti que a única ponte que existia era ponte que nos ligava apesar da longínqua distância que nos separava. Uma distância que nos mantinha próximos por compartilhar essa caminhada. Conheço outra ponte, que me levará para o nada.