Ponte
Comecei a semana
entrando em uma conexão do espaço-tempo. Sentia-me entre dois universos
explorando um horizonte de possibilidades. Pensava em uma ponte sobre o
mar, no vôo das gaivotas e seu mergulho em queda livre para caçar,
enquanto a estrada passava sob meus pés e imaginava a cor do céu
refletindo na superfície do mar. Imaginei a ponte à noite, sobre as
águas, suas luzes noturnas refletindo sobre as ondas. Num último
suspiro outra queda, mais uma vez a queda. O ar passando cada vez mais
veloz, nem quente, nem frio, apenas passando. Tudo parecendo tão
repentino, fugaz.
Estava a caminho do mangue que se escondia nos
remansos do porto. Era de manhã, as nuvens se dissipavam no céu. Eu só
tinha que dar mais um passo naquela lama negra do manguezal, apenas
mais um passo, depois outro, e mais outro para avançar. O suor cobria
meus olhos, ardendo. Todos os sentidos atentos a qualquer sinal de
vida, a qualquer rastro ou evidência de sua passagem. Gases com seu
odor fétido brotavam a cada passo. Às vezes afundava caindo lentamente
rumo a algum lugar. Aquela lama que parecia me sugar para baixo quando
eu vacilava, retinha meu corpo como um sonho mau. Caminhei horas atrás
de uma garça que caçava. Eu caçava o caçador na natureza.
Lembrei-me
de outra ponte, de outra queda, não tão longa. Levando para longe
alguém que estava longe. Senti que a única ponte que existia era ponte
que nos ligava apesar da longínqua distância que nos separava. Uma
distância que nos mantinha próximos por compartilhar essa caminhada.
Conheço outra ponte, que me levará para o nada.