Edição 8

Fazer o quê?

Daniel Faria

branco persegue o azul. O branco assassina o azul e a vista cansada ao sol de dezembro injetado na veia - Areia quente e branca nos olhos. * * * Mal saio de casa e a poesia me persegue; a poesia não cabe em qualquer teoria, a teoria persigna a poesia.

* * * Meu irmão me disse que só sabe que amo porque escrevo. Fazer o quê, prezado leitor? * * * Não diante do senso, do Juízo de Oito-Olhos basileu desta cidade esburacada pelas crias de um buraco-negro (o Aleph não, o Aleph é teologia barata e falando nisso não sei porque tanto se diz que o diabo pressupõe a existência de deus.

Pode ser que apenas o diabo seja, ou deus esteja usando silenciador em seu revólver) * * * Uma cratera pode se abrir e te tragar em cada esquina, há no subsolo de Campinas uma porção de ampulhetas sedentas de areia branca. Fazer o quê, prezado leitor?

Calar-se? Olha olha O silêncio cala fundo cava fendas cria calos em tudo o que digo, além disso não há silêncio & silenciamento é o que há o que há é o silenciamento, apenas, e seus mandamentos gritantes, por sinal. * * * Tudo o que você deixou de dizer virou um carrapato nesta língua anêmica, onde a palavra jaz esquecida na ponta da língua ou numa tradução equívoca de Philip Larkin: a roda da vida é foda mas se pode escolher se outro inocente vai se foder com a gente.

* * * O verbo não se fez carne para o cala-te boca. O terminal rodoviário cria musgos pelos desejos perseguidos e assassinados, enquanto trocamos impressões sobre o clima alguém jogou uma pedra na janela do 331, minha linha, ainda se vê a mancha de sangue onde o menino foi atropelado que lembra a marca do corpo do jovem que se suicidou aos pés da rádio muda.

e alguém me dizendo mil vezes que no mundo se fala demais.