Post scriptum de um céu sem estrelas
Eu
e as coisas que deviam acontecer. Sempre de mão dadas. E você ao lado,
mudando o curso das coisas. Por que precisa. Por que não tem um terço
da confiança que eu tenho na vida. Tantas coisas nos separam, Bill.
Parece que é tudo tão fatal. Eu vejo no seu olho.
Sabe aquela
hora do dia em que tudo que acontece não acontece realmente, você só
fica pensando olha como seria bom e a hora certa dele segurar minha mão
ou acender o meu cigarro ou me pedir em casamento. Tudo menos
romântico, mas deviam acontecer milhares de coisas ali naquela hora,
mas não aconteceu nenhuma e fiquei em silêncio escutando Bill falar e
ele distraía-se com seus próprios pensamentos, a ponto de parecer que
estava falando com um espelho.
É muito fácil você pegar Bill num
dos dias dele de falar, ele fala muito e chama muita a atenção enquanto
gesticula firmemente. Você pode considerar ou desconsiderar o que Bill
falar, mas aposte, você ouvirá tudo do começo ao fim, sem interrompe-lo
e muito interessado, seja lá qual for o seu motivo. Eu ouço Bill falar
por vários e vários motivos. O primeiro é por que eu o amo. O segundo,
é por que o respeito. O terceiro é que uma vez, Bill me calou. Talvez
tenha sido ali que eu vi minha queda, esta na qual estou caída agora,
quando ele conseguiu penetrar num espaço que não era dele, e talvez
fosse dele e não meu, é uma hipótese, mas enfim, ele imediatamente foi
explicando as coisas dele e foi nos arrancando sorrisos e atenções (os
meus, de uma forma um pouco mais séria) com aquele jeito dele de quem
não quer nada, mas Bill no fundo, é, assim como eu, um exibicionista.
Tão esperto quanto, ou mais. É aí onde paira o meu medo. Do quarto
motivo em diante já não interessa.
Então Bill dialoga muito,
tem ótima memória e eu penso que ele poderia ser um daqueles que
decoram datas só pra poder ficar citando, mas ele não chega a fazer
isso, ainda bem. Quando Bill está por perto, eu entro numa espécie de
descanso interior e ele fala e eu presto atenção, ocasionalmente rindo
ou concordando ou discordando, nunca mais de umas sete frases seguidas,
enquanto Bill é capaz de falar mil frases seguidas e sem intervalo, e
sem colocar sono em ninguém. Normalmente Bill perde todos os meus
melhores momentos. Sou conhecida por falar o tempo todo, sem nenhum
tipo de controle, mas Bill diz que eu só tagarelo quando estou bêbada,
e Bill até dá boas risadas comigo. Gosto da risada de Bill. Gosto da
risada surpreendida de Bill. Agora preciso de estimulantes
constantemente, desde que entrei nessa de querer o que não posso ter.
Vivo chamando Bill pra tomarmos um trago ou pra fumarmos um juntos na
frente da tv de casa, mas apesar de nunca parecer detestar a idéia, ele
também nunca aparece. Bill agora sossegou. Viu de tudo, conheceu e
provou de tudo, ao ponto que eu ainda não, e talvez por isso eu ouça
com tanto deslumbramento. Gosto das histórias de Bill. Ele nunca se
desviou de seu caminho. Talvez seja por isso. Bem. Nada de voltar aos
motivos. Eles nunca são prováveis e muito menos não-confiáveis. Apenas
não dá pra saber.
É claro que eu gostaria de poder descansar e
acordar no peito de Bill todas as noites, ou pelo menos na maioria
delas. Bill não precisa ver todos os meus momentos. E claro que eu fico
horrorizada com esta coisa de achar um porto e não poder ficar nele, eu
pensei que quando acontecesse então tudo estaria terminado, não um game
over em si, mas então eu também sossegaria. Uma das coisas que deviam
acontecer. Então eu apenas devo constatar que eu ainda não vi nada e
que é bom eu começar a me preparar (mais) por que se no começo já está
assim, imagina quando eu for uma macaca velha, eu não quero nem pensar
nos lugares por onde eu ainda vou ter que fuçar. A pior, foi daquela
vez em que me juntei com um punk de rua, literalmente, ele morava na
rua, vivia fungando, vivia bêbado e vivia me pedindo pra casar com ele,
por que ele queria sossegar por que finalmente tinha me achado. Então,
quero dizer, ele também não deu sorte. Estou na pele do lobo, e do
caçador. Bill merece o que tem.