Edição 8

O tolo

Larissa Tanganelli

os livros e códigos que conhecia levaram-no aos seguintes erros: 1. Pensava que era Homem consciente. 2. Acreditava que o corpo e a alma eram dois princípios reais de existência. 3. Tinha certeza de que o corpo era a causa de todo o Mal e que os desejos seu inferno.

4. Defendia que a razão era a única possibilidade de organizar o conhecimento. 5. Temia a ira de um deus onipresente q eu o puniria por cada ato incerto. Por outro lado desconhecia seus acertos: 1. Percebia que sua consciência ultrapassava os limites impostos por uma cognição coletiva que construía o mundo.

2. Sentia que os sentidos estavam muito além de cinco. 3. Fazia da intuição um complemento oblíquo da razão. 4. Conhecia a energia que era outro estado da matéria. 5. Vivia em função dos ciclos da pulsação dessa energia deixando para trás os umbrais do cotidiano para atingir as fronteiras da sanidade.

Recordou a frase escrita na entrada da sala rústica sem móveis “Todo desejo é passível de ser refreado”. “Sou fraco” pensava enquanto contemplava a paisagem do alto da montanha rochosa, “Não refreio meus desejos”. Lembrava de quantos esforços para sobrepor a razão reprimindo os impulsos de uma percepção cotidiana.

Governante supremo que reprimia os relutantes usurpando possibilidades. Restringiu os perímetros para reduzir a superfície de contato. Mas eles voltavam das sombras com a fúria dos injustiçados. Levantou-se e voltou a andar pela crista rochosa da serra.

Reentrâncias cortantes do granito ancestral prontas a cortar ante o primeiro vacilo. Sem segunda chance, sem perdão ou misericórdia. Nos vales abaixo talvez se encontrasse o paraíso perdido dos Homens. A razão lhe enviava pulsos cada vez mais lentos de uma nitidez esmagadora.

A realidade pesando em cada centímetro de sua pele. Pressionando o crânio de dentro para fora. Vieram-lhe à mente as palavras do livro de Zot “O que governa na escuridão é muitos, por isso o chamam Legião, por ter muitas cabeças a decidir suas ações o denominam também de Medusa.” Era assim com seus desejos que permaneciam latentes na escuridão de seu ser.

Desejos que insistia em transformar em demônios particulares, em culpas irremediáveis. Mas Zot também dizia em sua sabedoria de bar que “o Grande Satã está dentro de nós, esperando por um momento de fraqueza para nos fazer servis” e logo em seguida entornava mais um copo de vinho.

Ele viu como sua história se repetia em diversas formas em outras pessoas e pensou que os pesadelos esféricos se encadeavam em espirais intermináveis nas sucessivas noites que rolava na cama. Se perguntava, então, “como engendrar o Paraíso tendo caído?” Como pensar que o Abismo, aquele traficante barato, teria algo para ser roubado?

Na verdade o Diabo o espreitava em cada esquina, em cada balançar sensual de um quadril torneado, ou na luminosidade quase etérea de écrans envelhecidos pelo uso. Esperava as revelações na figura de um mestre mítico que nunca viera para aplacar o ardor do desejo insatisfeito.

A ânsia de ir além de qualquer razão consoladora para fundamentar e justificar atos cotidianos e nunca voltar atrás. Esperando encontrar o imortal Iefe que habitava as profundezas dos fogos flamejantes da luxúria. Ofuscando-se em cada olhar que tentava lançar para fora da esfera dourada em que estava preso.

Uma carruagem com cinco cavalos loucos lhe rondava a cabeça naqueles dias insanos. O condutor era irritantemente amoral e nada esclarecia. Sussurrava palavras suaves em meio à batalha sangrenta de cada dia. Ele retesava o arco preparando a flecha da vontade e hesitava.

Não encontrava o alvo entre tantos inimigos. Sabia que na morta mais nada restaria a não ser um quarto afastado nos fundos de uma casa esquecida tomada como já vira em outras ruas.