Edição 8

Viva Marta, viva farta

Nicole Louise

viva farta Nicole Louise Outro dia li no jornal um relato sobre a vida de uma mulher que pariu 5 filhos, largou o marido aos 45, adotou mais 6 e cuidou dos 11 sozinha, até conhecer, àà beira dos 60, o grande amor de sua vida, com quem já está há quase 10 anos.

Ao final do último parágrafo que narrava essa trajetória, havia uma nota do autor do relato, que escreveu: ““Escolhi relatar a vida de Dona Cleide porque neste dia, 08 de Março, dia Internacional da mulher, nós, historiadores que somos, nos interessamos por trajetórias de mulheres fortes que lutaram e se rebelaram; estáás sim merecem nosso respeito”.

Apesar da incontestável beleza da história de Dona Cleide, marcada pela disposição de prosseguir, enfrentar, arriscar e prosseguir, sozinha ou acompanhada, me incomodei profundamente com a intenção do autor de deixar bem claro que apenas mulheres como Dona Cleide são dignas do interesse de historiadores e leitores.

Mas logo em seguida me alegrei por lembrar que conheço uma mulher forte e lutadora que, segundo o infame jornalista, jamais terá sua história relatada em um jornal, porque apesar de ser forte e lutadora, ela não se rebelou. Como maior que o meu interesse pelos adjetivos atribuídos às pessoas, é o meu interesse pelas pessoas, sejam elas inventoras, ou “vivedoras”, como já ouvi gente dizer lá no nordeste, apresento-lhes: Dona Marta.

Ela, a Dona Marta que também é dona de lindos olhos verde, (que eu gostaria de ter herdado), e de lábios carnudos rosados (que eu herdei), emoldurados por um queixo quadrado e por cabelos dourados caídos sobre os ombros. Nem alta, nem baixa; nem gorda nem magra; nem feia, nem bonita.

Simplesmente LINDA. Casou aos 23, com um homem quase 10 anos mais velho, que vivia a espiar de rabo de olho quando ela atravessava a rua de mãos dadas com uma outra moça no caminho de volta do cinema. Ele: o Hélio. Moreno, pele e olhos marrons, bigodudo.

Sempre de terno (o úúnico), gravata e chapéu: típico botequeiro de primeira; canastrão, de família pobre, que dava duro durante o dia e aproveitava a vida com as mulheres de vida nada fácil durante a noite. Um dia ele cansou de ter mulher só a noite e resolveu dar fim às trocas de olhares habituês com a moça de vestido azul que cruzava o seu caminho todo o fim de tarde das quintas-feiras.

Chegou perto, cumprimentou, pediu licença para acompanhar (as duas) até em casa; papo vai, papo vem, descobriu que uma das moças não era tão moça, se chamava Sônia e era mãe da deslumbrante moça de olhos verdes, beleza hipnotizante e sorriso tímido...

““Marta... que nome lindo.” Foi a primeira das investidas descaradas, reservada à doce donzela e à sua, nada doce, família. Marta tratou de convencer a mãe a deixá-la namorar com o Clark Gable tupiniquim. E conseguiu. Namoraram, casaram, tiveram filhos (três: Céésar, Celina, Cecília), tudo como manda o figurino...

E antes mesmo da caçula nascer, Marta já havia se dado conta da peça que a vida havia lhe pregado: o namorado bonitão e gentil provou-se um marido machista, grosseiro, agressivo... alcoólatra. Marta ainda vive. Tá velha, cansada, mal cuidada, mal amada, mas continua linda porque a natureza foi generosa o bastante para manter em seu rosto os traços mais característicos da beleza que fascinou tantos morenos bigodudos que viveram pelas ruas da São Paulo da década de 50...

E Marta continua lá: na casinha dela, com o mesmo marido (ranzinza e arrogante), os mesmos filhos (alguns mais perto, outros nem tanto; alguns arrumados na vida, outros nem tanto), as mesmas tarefas domésticas (diárias e cansativas). Marta nasceu, cresceu, casou, padeceu, apanhou, envelheceu...

Mas isso não foi o suficiente para que escrevessem sobre ela. Marta nunca desafiou, nunca desobedeceu, e muito menos se rebelou... Marta agüentou, Marta suportou, Marta sobreviveu, e isso é suficiente para me fazer respeitá-la, e ainda que em seu lugar eu tivesse feito tudo diferente, escrevo sobre Marta por um único motivo: pelo simples e relevante fato de que Marta viveu.

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