Edição 8

Desencantado

Paulo de Tharso

Todos temos um grande cansaço em sermos tanta coisa!

Eu, por exemplo, sou sempre retardatário no horário da vida

E para a hora da felicidade.

Sem noite serena, sem lindo luar,

Sem nehuma sereia bailando no mar.

Deus...Que fiz eu da vida?

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça!

Ter deveres, ter que estar lá...

Odeio o sol, que doura as casas dos réprobos.

Esse mesmo sol que cega os olhos da criança faminta

Vagando pela rua, cheirando cola, éter e benzina,

Enquanto jogamos purpurina televisiva para remediar.

Vagar pela noite é meu ofício. E meu trabalho é regressar à liberdade.

Deprimido? Eu? Não, não sou!

Sou desencantado. Apenas isso!

Também trago muito cansaço de ter de ser tanta coisa.

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça!

Que está colada ao corpo e longe do coração.