Edição 8

A lua e a sarjeta

Paulo F

quem acredite na vida. Há quem acredite na noite. Ela estava lá. Branca, nuca, indefectível. Me olhava do alto, altiva. Oferecia sua claridade mas a escuridão dela se bebia sem deixar nada para mim. Trançando as pernas seguia pelo beco. Janelas, postes, lâmpadas tornando-se três.

Girando em torno de si mesmas. O mundo girando em torno de minha cabeça. Sem direção. Um cachorro malandro imundo perdido no mundo. Um amante calmo procurando uma musa. Uma gota de algo, que não seja água, se espatifando no chão da realidade. Te olho e você me ignora.

São três, girando ao redor de si mesmas, e seis e noves fora. Belo. Atiro a garrafa em sua direção. Jack Daniels puro estilhaçado no chão. A perna cede o joelho dói. Não há mais ruas como essa na cidade. Minha agonia. O resto é asfalto, o poeta já dizia.

A pedra é dura, não rala e meus braços reclamam mas não sangram. Sobra o filete de água verde correndo ao meu lado. Barulhenta como ondas, veloz como um rio, plácida como um lago. E Jack Daniel rastejando e mergulhando. Observo o encontro. O verde e o ouro.

Do alto, o leite, uma gota branca vindo da lua de meus olhos e acerto o exato ponto de encontro. E a lua de verdade lá. Branca como P.J. Harvey. Abaixo a cabeça. And we float.