Muito além do jardim
Há
coisas intraduzíveis, como a angústia dos passos depois da porta, a
solidão do pássaro que se perdeu do bando, a despedida sem palavras. Há
dores invencíveis, dessas que apenas se acomodam no hiato entre o
desejo e a inexplicável negação dos que se distanciam.
Há
mudanças que acontecem sorrateiras, de forma imprevisível, sem que
ninguém imagine que a fibra da nossa emoção se rompeu e não dissemos ai.
Essas
situações excluem peças da sensibilidade, transformando o jogo de
memórias num exercício de desencanto, embora a gente viva, trabalhe e
represente como o herói de uma história sem fim.
Existe por
aí, uma falta de sintonia entre o sonho e a realidade, uma cisão entre
o querer e o poder, uma imposição que silencia o mar das palavras, um
vento que corta sílabas. Por tudo isso, meu patchwork de emoções
emenda-se nas linhas que rabisco, mas não estou inteira. O que tenho a
dizer tornou-se indizível. Não há espaço para a interlocução. O que
transparece é apenas um estado de espírito. O sentido de alguém que
passa e, no lugar das frases, deixa um perfume. O dia termina. Lá fora,
o jasmim perde uma flor, ninguém recolhe as pétalas.