Edição 9

Limite

Daniel Cavana

Estou entre o sono e a vigília. Busco o eixo do mundo. Desço por raízes atrás dos mundos subterrâneos. Caminho como um guerreiro hostil. Acima do mundo dos homens procuro o Sol e a Lua, como os ramos altos de uma árvore mítica que roça as nuvens. Domínio de deuses, palácios de cristal. Construídos a sangue e fogo. Um delírio não percebido.

Me arrastava carregando uma inércia enorme. Havia coisas que definitivamente não começava. Outras, não deixava de fazer. Com isso em mente abri novamente o livro sem saber porquê. Caminhava com os olhos pelas linhas regulares de páginas amareladas. Sem memória. Apenas a seqüência de sensações que as palavras encadeavam em um passado que não me pertencia. Lentas, suculentas, palavras pronunciadas.

Caminhava lentamente em um bosque profundo. Pés em um tapete de folhas de pinho. O silêncio denso, os aromas puros. Acrescentando linhas desconexas ao diário de viagem como naturalista insólito. Fragmentos de poemas, pensamentos, liturgias místicas perdidas na memória de um continente desconhecido. A cada passo os aromas que subiam. O silêncio rompido. Com as mãos chegando próximo sem tocar nada. Sem trilhas definidas para seguir. Apenas um caminhar constante que se alongava em uma espiral excêntrica. Para fora, como fazem os predadores.