Limite
Estou entre o sono e a vigília. Busco o eixo do mundo. Desço por raízes atrás dos mundos subterrâneos. Caminho como um guerreiro hostil. Acima do mundo dos homens procuro o Sol e a Lua, como os ramos altos de uma árvore mítica que roça as nuvens. Domínio de deuses, palácios de cristal. Construídos a sangue e fogo. Um delírio não percebido.
Me arrastava
carregando uma inércia enorme. Havia coisas que definitivamente não
começava. Outras, não deixava de fazer. Com isso em mente abri
novamente o livro sem saber porquê. Caminhava com os olhos pelas linhas
regulares de páginas amareladas. Sem memória. Apenas a seqüência de
sensações que as palavras encadeavam em um passado que não me
pertencia. Lentas, suculentas, palavras pronunciadas.
Caminhava
lentamente em um bosque profundo. Pés em um tapete de folhas de pinho.
O silêncio denso, os aromas puros. Acrescentando linhas desconexas ao
diário de viagem como naturalista insólito. Fragmentos de poemas,
pensamentos, liturgias místicas perdidas na memória de um continente
desconhecido. A cada passo os aromas que subiam. O silêncio rompido.
Com as mãos chegando próximo sem tocar nada. Sem trilhas definidas para
seguir. Apenas um caminhar constante que se alongava em uma espiral
excêntrica. Para fora, como fazem os predadores.