Edição 9

Uma pequena e singela crônica de natal

Jarbas Capusso Filho

A sala de jantar está toda decorada para o natal. Há uma imensa arvore e, apesar de ser umas oito e meia da manhã, há trocentos milhões de pisca-piscas e uma infinidade de papais noeis, em todas as versões: saxofonista, surfista, com renas, sem renas, escalando etc etc, todos em pleno funcionamento. Transformando o ambiente num caos de sons, cores, movimentos e luzes. Ela, sentada à mesa, vestindo um robby e fumando, toma goles de café entre uma tragada e outra. De vez em quando olha a parafernália toda de natal e sorri, suspira e sorri, satisfeita. Ela lê uma revista Caras que, na capa, trás o natal da xuxa e da sasha. Ele, incrivelmente sorridente e feliz, chega ainda de pijama e senta-se. Ela, o olha de relance, meio que curiosa, com estranheza, sem que ele perceba.
Ela - Aconteceu alguma coisa?
Ele - Não, por que?
Ela - OLHA NO RELÓGIO Você nunca desce pro café antes das nove...
Ele - É mesmo? Nem sabia disso...
Ela - Eu sei! É que você sempre faz o... o... bem, você sabe.
Ele - O numero dois?
Ela - Isso. Todo dia você faz o numero dois antes de descer pro café. E hoje chegou tão rápido.
Ele - Hoje eu não tava afim.
Ela - VOLTA A LER A REVISTA. LONGA PAUSA PREOCUPADA Aconteceu alguma coisa?
Ele - Como assim?
Ela - Você está bem?
Ele - UM TANTO IRRITADO Eu estou ótimo!
Ela - Calma. Só estou preocupada...
Ele - CORTANDO Preocupada porque eu não dei uma cagada matinal?
Ela - Como?! o que você disse?
Ele - Isso mesmo. Você está preocupada porque eu não dei a minha cagada-diária-matinal. Não é isso?
Ele - Que jeito é esse de falar? Em vinte anos de casamento você nunca falou desse jeito chulo comigo.
Ele - Chulo? Cagada?
Ele - O que foi? Não levantou bem não? LONGA PAUSA Hoje é dia de natal e eu gostaria de ter paz e serenidade nesta casa, entendeu? COM RAICA CONTIDA Paz e serenidade!!! Pode ser?
Ele - E o que tem a ver o natal com o fato d’eu ainda não ter cagado?
Ela - NERVOSA. PERDE O CONTROLE Olha aqui, não quero saber desse tipo de palavreado aqui em casa. PAUSA Tá bom, Jorge. O que está acontecendo? Eu fiz alguma coisa? Você não está feliz?
Ele - Feliz...? Hum... Depende? PAUSA Sabe por que eu não caguei hoje cedo?
Ela - Não!!!
Ele - Eu vou te explicar: sabe ontem eu estava pensando na nossa vida. Na minha rotina.
Ela - O que tem a sua rotina?
Ele - Justamente isso: a rotina, não percebe?
Ela - Não...
Ele - Todos os dias eu faço a mesma coisa. Levanto, dou uma cagada, leio o jornal, cagando, tomo banho, o café e vou pro escritório. Trabalho a noite volto pra casa, tomo banho, janto e vamos dormir.
Ela - Mas tem os finais de semana.
Ele - Sim, que, impreterivelmente, ou vamos pro guarujá ou pra casa dos seus pais, no interior IRONIZA FAZENDO SOTAQUE DE CAIPIRA
Ela - Mas qual o problema? Eu não estou entendendo.
Ele - O problema que eu não agüento mais! Eu precisava me sentir vivo novamente, entende. Senhor dos meus dias, da minha vida!
Ele - E...?
Ele - E eu resolvi que vou mudar a minha vida e vou causar uma revolução interna. E o natal é uma bela data para se começar algo. LONGA PAUSA. SOLENE Eu vou mudar os horários das minhas cagadas.
Ela - É, e em que horário você vai fazer o seu número dois?
Ele - Ah, uma outra coisa, benzinho: cansei de hipocrisia. De hoje em diante só uso os termos: cagar, cagada e... caguei!!!
Ela - Tá, Danton, e qual é o novo horário das suas... suas... PIGARREIA, ENTOJADA ca-ga-das?
Ele - Aí que é a chave do negócio: não tem horário.
Ela - COM RAIVA Como assim? Você quer me enlouquecer?! Você quer destruir o nosso lar?! É isso???
Ele - Calma, Jane. De hoje em diante as minhas cagadas vão ser aleatórios, compreende? ESTUFA O PEITO, ORGULHOSO Sem horários pré determinados!
Ela - Mas por que isso agora? O que eu fiz, meu deus? Onde foi que eu errei. Já sei, você tem outra. Você tem outra, eu sabia! Eu sabia!
Ele - Pára com isso, Jane. Sem melodramas. Estou falando de merda e você vem com essas suas paranóias. PAUSA Você não entende? Vou colocar um pouco de emoção na minha vida. Na nossa! Vamos mudar, Jane, ousar! Tente, invente, em 2008 faça alguma coisa diferente. Por que não?! PAUSA Olha só Nogueira.
Ela - O que tem o Nogueira?
Ele - Não te contei, não?
Ela - Não...
Ele - O Nogueira, noutro dia, no cafézinho, me disse que parou de ir na seicho-no-ie, operou a fimose e... BAIXINHO, SACANA só come a... a... rosquinha da Odila ouvindo Saturday Night Fever FAZ O MOVIMENTO CLÁSSICO DO JOHN TRAVALTA DANÇANDO NO FILME. Yeah!
Ela - Meu deus!!! Mas eles fizeram encontro de casais no começo do ano! PAUSA. PENSATIVA Mas será que isso não vai acarretar conseqüências nefastas em nossas vidas? Na vida dos nossos filhos? Meu deus! Nas prestações da casa, em maresias???
Ele - Não se preocupe, benzinho, está tudo sob controle. Venho pensando nas minhas cagadas há muito tempo e tenho certeza que não vai dar merda.
Ela - Jorge, isso não vai atrapalhar o nosso natal? E se te der vontade de cagar bem na hora do almoço, com os meus pais e a minha irmã aqui? Você sabe que a Lane tá fazendo terapia de vidas passadas e ela está muito sensível, né?
Ele - Qual o problema? Eles não cagam não? Tenho certeza que a Lane cagou em todas as encarnações dela. PAUSA Tá, tá bom. Pode deixar, morzinho, vou cagar pianinho. No sapatinho, ok? LONGA PAUSA Você também deveria tentar, meu bem. Mudar a sua rotina. Isso vai dar um upgrad no nosso relacionamento.
Ela - Tentar o que?
Ele - Mudar a sua rotina. Fazer algo realmente diferente. Transformar a sua vida a partir de hoje!
Ela - Mas eu quase não cago. Tenho o intestino preso, Jorge.
Ele - É verdade. PENSATIVO LONGUÍSSIMA PAUSA Ah, já sei! Ah, até hoje, desde a faculdade, Jane, você nunca mais engoliu.
Ela - É mesmo...?
Ele - Ahã. Tenho certeza. Você só cospe.
Ela - Puxa, nem tinha me dado conta disso. O anos vão passando e vamos fazendo as mesmas coisas e nem percebe, né...?
Ele - Tai! Talvez seja a sua chance de mudar, de ousar, benzinho.
Ela - SORRI, SONHADORA É mesmo... talvez, e só depende de mim! É só... é só... eu engolir!!!!