Sombras do passado
de: JULIO CARRARA Escrita em 1995 PERSONAGENS: LUCAS VIVIANE RODRIGO GUSTAVO ALICE ADELAIDE CAROL RENATA ÉPOCA: Atual CENÁRIO: Dois ambientes: o casarão de Lucas e a casa de Rodrigo. Ao fundo do palco, um plano mais elevado. No casarão é o quarto de Lucas.
Na casa de Rodrigo, o quarto de seus pais. Neste plano deverá estar uma cama de casal que permanecerá fixa até o final do espetáculo. Uma escada central conduz para esse plano. No casarão, os móveis são bem rústicos. Fica à critério da direção a divisão da sala e cozinha.
Um box ao fundo do palco, do lado direito, no plano superior. Na casa de Rodrigo, um sofá preto, uma mesinha e uma escrivaninha à direita central. Esse cenário deverá ser luxuoso para contrastar com o casarão de Lucas. Nas mudanças de cenários, que ocorrem em duas cenas, os próprios atores deverão tirar e pôr os mesmos com coreografias de “street-dance”.
Em último caso, um grupo de bailarinos deverão compor o elenco do espetáculo. Mas isso, fica a cargo da direção. CENA 1 (TREVAS. OUVIMOS NO ÁUDIO UM RUIDO DE TROVÃO. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO UM ESPAÇO CÊNICO LIMPO. O FORTE CLARÃO DO RAIO INESPERADAMENTE RASGA O CÉU.
É NOITE. A CHUVA COMEÇA A CAIR FORTEMENTE. ENTRA EM CENA UMA GAROTA. PROCURA UM ABRIGO PARA SE ESCONDER. PASSA UM ÔNIBUS. ELA ACENA, MAS O ÔNIBUS SEGUE SEU DESTINO, SEM PARAR. ELA XINGA. A CHUVA AUMENTA E CHICOTEIA O SEU ROSTO. UM CARRO EM ALTA VELOCIDADE PASSA NUMA POÇA D’ÁGUA E ENCHARCA A GAROTA.
ELA DIZ PALAVRÕES NA DIREÇÃO DO CARRO. LOGO EM SEGUIDA, CAMINHA MAIS UM POUCO ATÉ ENCONTRAR UM VELHO CASARÃO. AO CHEGAR LÁ, PERCEBE QUE A PORTA ESTÁ ENTREABERTA. ENTRA. LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA REVELANDO O AMBIENTE, QUE ESTÁ TODO BAGUNÇADO: ROUPAS PENDURADAS EM UM VARAL IMPROVISADO, PAPÉIS ESPALHADOS POR TODO O CANTO, ETC.
A GAROTA SENTA-SE NUMA CADEIRA, TIRA O TÊNIS E TORCE SUA CAMISETA. ELA FICA OLHANDO PARA VER SE APARECE ALGUÉM E SE ASSUSTA QUANDO VÊ UM RAPAZ SAINDO DE UM DOS CÔMODOS.) VIVIANE - Olha, eu tava me escondendo da chuva e só entrei porque encontrei a porta aberta...
(PEGA SEU TÊNIS) Eu achei que não morava ninguém aqui. Desculpa, viu? Já tô saindo... (FAZ MENÇÃO DE SAIR) LUCAS - Fica fria. Pode ficar aí o tempo que quiser... Caraca, você tá toda molhada. Vou descolar uma roupa seca pra você. VIVIANE - Não precisa.
LUCAS - Claro que precisa. Você pode pegar uma gripe... Esse tempo é maluco mesmo. De manhã tava um puta sol e agora no fim da tarde, essa chuva e esse frio. São Paulo é foda. (PEGA NO VARAL UMA BERMUDA E UMA CAMISETA) Tá na mão. (ENTREGA-LHE A ROUPA E FICA OLHANDO PARA A MENINA.
VIVIANE FICA UM POUCO CONSTRANGIDA POR TROCAR DE ROUPA NA FRENTE DELE. LUCAS SE TOCA) Ah, o banheiro fica ali. (APONTA) (VIVIANE ENTRA NO BANHEIRO. LUCAS, PERCEBENDO A BAGUNÇA DA CASA, ARRUMA-A RAPIDAMENTE. EM SEGUIDA, CAMINHA ATÉ A COZINHA E PEGA UMA CHALEIRA QUE ESTÁ SOBRE UM FOGÃOZINHO DE DUAS BOCAS.
LEVA-A ATÉ A MESA E DESPEJA O CHA EM UMA XÍCARA. VIVIANE SAI DO BANHEIRO. A ROUPA QUE USA É MUITO MAIOR DO QUE ELA) VIVIANE - Obrigada pela roupa... LUCAS - (OFERECE-LHE O CHÁ) Toma o chá. Acabei de fazer. Ainda tá quente... VIVIANE - (SENTA-SE NA MESA E PEGA A XÍCARA) Nem sei como te agradecer.
(BEBE. PAUSA) Você mora sozinho aqui? LUCAS - Moro. VIVIANE - Já sei... Você é um universitário que saiu da sua casa no interior pra estudar em São Paulo? LUCAS - É... Não foi bem assim. VIVIANE - E sua família no interior, seus pais, irmãos? LUCAS - Eu não sou do interior, não tenho mãe nem irmãos.
VIVIANE - Ai, desculpa... LUCAS - Hoje fez dois anos da morte da minha mãe... VIVIANE - Mas... e seu pai? LUCAS - Eu não conheci meu pai. Minha mãe era mãe solteira. VIVIANE - (IRRITADA CONSIGO MESMA) Puta que pariu, hoje só tô dando bola fora... Foi mal...
Eu tô querendo saber muita coisa sobre você... Você deve estar se sentindo um criminoso num interrogatório. LUCAS - Tudo bem... (DOCE, AO PERCEBER QUE A GAROTA ESTÁ CHATEADA) Não fica assim... Há muito tempo que eu não converso com ninguém... E desde que a minha mãe morreu eu me fechei contra tudo e contra todos....
Virei um “outsider”, saca? Também, não tenho ninguém pra desabafar. VIVIANE - Pois pode contar comigo para o que precisar. Meu nome é Viviane. (ESTENDE AS MÃOS) LUCAS - (APERTA CARINHOSAMENTE A MÃO DA GAROTA) Lucas... (PAUSA) Mas não sei se posso contar com você, VIVIANE - E por que não?
LUCAS - É que por confiar demais em algumas pessoas, eu sempre acabei me fodendo... Você se entrega, faz tudo para quem confia, e quando você percebe, esta pessoa crava um punhal nas suas costas... Sacou? (ELA ACENA AFIRMATIVAMENTE COM A CABEÇA) Um pouco antes de você chegar, eu estava aqui na janela vendo a chuva cair na vidraça.
O dia cinzento, cor da solidão... Aí eu me lembrei da minha mãe... Quando ela morreu, o dia estava assim, cinza... e chovia, como hoje... Ela já estava em estado terminal... câncer. Já tinha dado metástase e não havia mais jeito de salvá-la... Eram sessões intermináveis de quimioterapia e radioterapia.
Ela sabia que iria morrer. E eu não acreditava. Aliás eu nem tinha noção da gravidade da doença. A gente acha que nunca isso vai acontecer com a gente, né? Achava que ela iria sair daquela cama e voltar a andar, a viver. Foi um sofrimento do caralho! È foda ver a pessoa que você ama, minguando, gritando de dor e você não podendo fazer porra nenhuma.
A vontade que eu tinha era de enfiar a mão no corpo dela e arrancar o tumor com as unhas... Um pouco antes de morrer, ela me falou sobre meu pai; disse que ele era um fraco, irresponsável, que depois de muitas juras de amor, deixou ela grávida de mim e não iria assumir a paternidade.
Ai ela fugiu dele. E se ela escondeu a verdade durante esse tempo todo foi pra me proteger. E se ele não tinha sido homem o suficiente para assumir a responsabilidade, ela assumiria. Eu nasci, ela me criou e viemos morar aqui, neste casarão, que um conhecido dela alugou por um preço bastante acessível pra gente.
Pouco depois ela morreu e não deixou nenhuma pista sobre o paradeiro dele. (COM OS OLHOS CHEIOS DE LÁGRIMAS) Fiquei pensando nisso o dia todo.(PAUSA) Eu deixei de acreditar nas pessoas... VIVIANE - Eu vou te ajudar a sair desse buraco em que você se meteu.
(TIRA DO DEDO UM ANEL E ENTREGA-O A LUCAS) Fique com esse sol... A lua está no meu dedo. Quando olhar pro sol, pense que existe uma lua que irá aparecer no céu, e no dia seguinte, o sol voltará a brillhar. (TIRA UM CARTÃO DO BOLSO) Aqui está o meu telefone.
Mas você não vai ficar livre de mim, não. Amanhã eu venho aqui pra devolver sua roupa... LUCAS - (SORRI) Certo. VIVIANE - Até! LUCAS - Até! (VIVIANE E LUCAS SE ABRAÇAM AFETUOSAMENTE. A GAROTA SAI. LUCAS ABRE UM SORRISO DE ORELHA A ORELHA. ENTRA NO BOX, TIRA A ROUPA, LIGA O CHUVEIRO E SE ENSABOA.
ESSA CENA DEVERÁ TER UM RITMO BASTANTE ÁGIL. DESLIGA O CHUVEIRO E COMEÇA A SE VESTIR. ENQUANTO ISSO, NO PLANO ABAIXO, ENTRA UM RAPAZ, AFLITO. PÁRA PARA TOMAR FÔLEGO, E AO VER A PORTA DO CASARÃO ABERTA, ENTRA DESESPERADO. FICA OLHANDO POR UMA FRESTA DA JANELA E SUSPIRA, ALIVIADO.
LUCAS, VEM DO QUARTO) RODRIGO - (VIRA-SE, NUM SUSTO) Desculpa invadir sua casa, mas tinha uns caras me seguindo debaixo do Minhocão. Na certa era um assalto... LUCAS - Calma... RODRIGO - (TRÊMULO) Acho que consegui despistar os caras... Vou cair fora...
Desculpa por tomar de assalto a sua casa, mano... LUCAS - Não vou deixar você se mandar nesse estado... Você vai ficar aqui até se acalmar. Você mora aqui na Santa Cecília? RODRIGO - Não, no Sumaré... Eu vim fazer uns trabalhos na casa de um colega. Meu pai não pôde me buscar e eu tava indo pro metrô.
LUCAS - Pois agora que você não vai embora mesmo. Já é mais de meia-noite e o metrô já parou de funcionar... Você fica aqui essa noite... RODRIGO - Eu não sei se deveria... Sei lá. Não queria te incomodar. LUCAS - Não é nenhum incômodo. Sinta-se em casa...
Mas acho bom você telefonar para os seus pais dizendo que vai dormir fora... Diga que perdeu o metrô e que vai dormir na casa do seu amigo, para eles não se preocuparem. Amanhã, quando chegar, você conta a verdade... RODRIGO - Você tem razão... Só não queria dar trabalho...
LUCAS - Ah, fica sussa... E não precisa ficar com medo, ouviu? Não sou nenhum psicopata assassino. Esse estilo aqui é mais uma fachada. Eu ando de preto pra me proteger, não pra atacar. (ESTENDE AS MÃOS) Meu nome é Lucas. RODRIGO - (ESTENDE A MÃO TAMBÉM E SE CUMPRIMENTAM) Rodrigo...
LUCAS - (DEPOIS DE UM TEMPO) Sabe que eu tenho a impressão de te conhecer de algum lugar? RODRIGO - (RI) Gozado! Eu também. A gente deve ter se trombado por aí... É, pode ser... (BLACK-OUT) CENA 2 (LUZ SOBE EM RESISTÊNCIA. O SOL COMEÇA A APARECER NO HORIZONTE.
LUCAS E RODRIGO SAÍRAM E EM CENA ESTÃO VIVIANE, CAROL, SUA IRMÃ E RENATA, SUA AMIGA. ESTÃO COM CADERNOS E APOSTILAS DE CURSINHO) RENATA - Ele mora sozinho, Viviane? VIVIANE - Mora. CAROL - (PEGA UMA CUECA DE LUCAS, QUE ESTÁ JOGADA NO CHÃO) É, da pra sacar mesmo.
Essa casa está precisando de um toque feminino. Homem é foda, né? Relaxado pra porra! Por isso eu prefiro ficar sozinha. RENATA - (IRÔNICA) Quem diria, não? Contando, ninguém acredita. A Viviane, apaixonada. VIVIANE - (IMPACIENTE) Não enche o saco, Renata!
CAROL - E por acaso, a gente tá falando alguma mentira, maninha? Não entra na minha cabeça, ainda. Não sei como você pode estar gamada por um cara assim... Ainda se fosse rico, tudo bem... Mas um pobretão que não tem nem onde cair morto?!... Fica na ilusão, queridinha...
Sabe o que ele quer de você, Viviane? Uma trepada! Só isso... Homem, minha filha, é tudo igual. São todos farinha do mesmo saco. Fingem estar apaixonados, a garota se ilude, depois vai pra cama com ele, vem uma trepadinha aqui, outra ali, e depois... tchau!
E depois, ele deixa a garotinha aí, chupando o dedo, depois dela ter aberto as pernas pro malandro! VIVIANE - (DEFENDENDO LUCAS) Ele não é como esses boyzinhos que a gente conhece, Carol. O Lucas é diferente dos outros... Dá pra sacar na hora... CAROL - (VENENOSA) As pessoas nem sempre são o que aparenta, Viviane...
Você, por exemplo. Quem iria imaginar que você, com essa carinha tão angelical, tivesse um passado tão negro? Ele sabe que você não é mais virgem? Que a bonequinha de louça até se prostituía pra conseguir dinheiro pra poder pagar o Cursinho? Que engravidou numa dessas transas e que praticou um aborto?
VIVIANE - Pára! Esqueça esse assunto, Carol... CAROL - Esquecer? Como esquecer? Foi tão recente... Há duas semanas atrás a garotinha estava numa clínica se recuperando. Fez os médicos mentirem pro papai... fez eles dizerem que você estava com anemia, lembra?
VIVIANE - Por favor, pára. CAROL - Já contou pra ele que você curte uma erva? Por falar nisso, eu trouxe um “beck” aqui comigo e tô louca pra dar um “dois”... Vamo aí, tata? VIVIANE - Você não vai usar essa merda aqui... RENATA - Tá com medo, Viviane?
Por quê? Porque vai infestar a casa com o cheiro? Relaxa, esse cara deve curtir também... Aliás, quem não curte maconha? Ah, deixa de hipocrisia. Todo mundo fuma maconha, Viviane... como o amor é um sentimento medíocre. Deixa as pessoas cegas! CAROL - (TIRA UM BASEADO DO ESTOJO E OFERECE A IRMÃ) Vamos aí, Viviane?
VIVIANE - Sumam daqui, porra. Vão pro inferno. CAROL - Tô te estranhando, bonequinha! RENATA - (DEBOCHA) É o amor!!! (AS DUAS CAEM NA GARGALHADA) VIVIANE - O Lucas vai acreditar em mim e não em vocês, suas frustradas! RENATA - Pára de ser ridícula! CAROL - Nem parece a Viviane que eu conheci...
Virou careta agora? Ou vai querer ser santificada como a Madre Teresa de Calcutá? VIVIANE - Saiam daqui... RENATA - Por quê? Tá com medo que o babaca apareça e descubra a sua verdadeira identidade? CAROL - A gente pode contar tudo... RENATA - Nos mínimos detalhes...
VIVIANE - (GRITANDO) Saiam daqui... CAROL - Ok, santa, você venceu! Mas fica esperta. A verdade poderá vir à tona a qualquer momento e aí... era uma vez a “virgem” Viviane... RENATA - Fica aí esperando o trouxa, fica... CAROL - Qualquer pisada na bola, santinha, tu tá fodida...
Beijo. Ah, quando você for trepar com ele, geme bastante, tá? E contrai a musculatura pra ele achar que tá tirando o seu cabaço. Au revouir, madame... (SAEM. VIVIANE PERMANECE IMÓVEL POR ALGUM TEMPO. UMA LÁGRIMA ESCORRE PELO SEU ROSTO. LENTAMENTE CAMINHA EM DIREÇÃO DA PORTA E SAI) CENA 3 (DO OUTRO LADO ENTRAM LUCAS E RODRIGO COM EMBRULHO DE PÃO, FRIOS E LEITE.
SENTAM-SE NA MESA E COMEÇAM A DESEMBRULHAR OS PACOTES. FAZEM O LANCHE. DURANTE A REFEIÇÃO, RODRIGO ENCONTRA NO CHÃO UM ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS. PEGA-O E FICA OLHANDO PARA AS FOTOS) RODRIGO - De quem são essas fotos, cara? LUCAS - Da minha mãe... Isso no tempo em que éramos felizes...
Agora, acabou tudo. RODRIGO - Não fica assim, cara. LUCAS - Eu me sinto tão sozinho... às vezes eu fico com uma puta vontade de chorar. Me dá uma angústia terrível. Meu coração fica tão pequeno dentro do peito e sobe uma tristeza tão grande que só passa depois que eu choro...
Ah, cara... eu sinto tanto a falta do meu pai... como eu invejava os outros garotos... Como eu ficava triste quando via os pais dos meus amigos jogando bola com eles... Eu não tive ninguém pra jogar comigo, saca?... Queria ter meu pai comigo desde pequeno, queria que ele esclarecesse todas as dúvidas que eu tinha, que falasse sobre as transformações que ocorreram no meu corpo, na minha voz, o motivo dessa metamorfose toda que um menino passa de criança pra adolescente.
RODRIGO - Você não é o único ser humano a passar por essas transformações, não. Também não é o único a ter essas dúvidas e não é o único que não tem um pai... Se isso te alivia eu não aprendi tudo com um pai, não. Aprendi na rua com os amigos, principalmente assuntos relacionados a minha sexualidade.
(PAUSA) Agora vê se anima um pouco, vai. Melhora essa cara. LUCAS - (OLHA PARA O ANEL) Ah, Viviane! RODRIGO - Quem? LUCAS - Uma garota que eu conheci ontem, um pouco antes de você chegar... Ela entrou aí pra fugir da chuva, a gente começou a conversar, papo vai, papo vem, a gente se olhando, e quando fui ver, (MENTE) tava calçando a garota...
RODRIGO - É isso aí, vai fundo, garoto. (OLHANDO PARA O RELÓGIO) Bom, Lucas, preciso ir embora. Obrigado por tudo, mano... Falou.. LUCAS - (CUMPRIMENTANDO-O) Falou... e diga a verdade lá na sua casa, ouviu? RODRIGO - Pode deixar. (RODRIGO SAI. LUCAS FICA PENSATIVO) LUCAS - Oh, Rodrigo, como eu queria ser você por um dia só pra saber qual é a sensação de ter um pai...
Seu pai deve ser gente fina pra caralho, né?! Eu fico idealizando o meu o tempo inteiro... Eu acho ele não deveria ser assim como minha mãe dizia. Ah, sei lá... Não vou sossegar enquanto não te encontrar, meu pai. Nem que eu leve a minha vida inteira pra isso!
(CHORA) VIVIANE - (ENTRANDO) Lucas, você tá aí? LUCAS - (SE ASSUSTA E ENXUGA AS LÁGRIMAS RAPIDAMENTE) Tô aqui no quarto, Viviane... VIVIANE - (VAI ATÉ ELE) Vim devolver sua roupa... (OLHA BEM PARA ELE) O que é isso? Você andou chorando? O que aconteceu?
LUCAS - (TENTA DISFARÇAR) Não foi nada. Foi um cisco que caiu no meu olho... VIVIANE - Ah, conta outra vai... O que você está me escondendo, Lucas? LUCAS - Nada! VIVIANE - Sei que tá escondendo alguma coisa... Tá fazendo isso por quê? LUCAS - (PERTURBADO) Não leva a mal, não.
Mas me deixa um pouco sozinho... Eu preciso ficar sozinho. VIVIANE - Eu só saio daqui depois que você se abrir comigo e contar o que tá acontecendo. LUCAS - Me deixa em paz... Vá embora! VIVIANE - Já disse que só saio depois que você se abrir comigo. LUCAS - (EXPLODE) Sai daqui Viviane, que eu não quero perder a cabeça...
Eu não quero te agredir, te humilhar, porra! VIVIANE - Então é assim? Eu venho aqui com a melhor das intenções e você me recebe com quatro pedras na mão? LUCAS - Pro inferno você e suas melhores intenções... VIVIANE - Bem que me alertaram... Homem é tudo igual...
Você não é especial como achei que fosse porra nenhuma. Você é mais podre do que todos. Fica aí, recluso neste casarão mal-assombrado, conversando com seus fantasmas. É a sua cara. Tchau, Lucas... Esqueça que eu existo... Passa pra cá o meu anel... (PENSA MELHOR) Não, não...
pode enfiar no rabo essa porcaria. (SAINDO) Até nunca mais. Estúpido! Grosso! LUCAS - (SEGURA A GAROTA, ARREPENDIDO) Desculpa, eu não queria ter falado desse jeito com você.. VIVIANE - É. Mas falou. E não te desculpo, não, seu grosseirão... LUCAS - (BUSCA PALAVRAS) É difícil pra mim, mas eu tenho que assumir...
Viviane, eu estou apaixonado por você... É isso... VIVIANE - (INCRÉDULA) O que você disse? LUCAS - Estou apaixonado por você. VIVIANE - Apaixonado... essa é boa! Paixão e tesão são coisas muito diferentes. É melhor terminar aquilo que nem começou. LUCAS - Não.
Já perdi muita coisa nesta vida. Você eu não quero perder... Vamos tentar: me dá uma chance. VIVIANE - Não... (DEPOIS DE UM TEMPO, ACABA CEDENDO) Dou, sim... Vamos começar do zero, nós dois. Vamos apagar o passado e viver apenas o presente. Até hoje, você foi o único homem que fez minha vida virar ao avesso...
(O FOGO CONSOME A AMBOS. SE ENTREGAM NUM LONGO E APAIXONADO BEIJO) CENA 4 (MUDANÇA DE CENÁRIO. OS ATORES E/OU BAILARINOS TIRAM TODOS OS CAIXOTES DO CASARÃO DE LUCAS, COLOCANDO UM NOVO CENÁRIO: O DA CASA DE RODRIGO. ESSA CENA DEVERÁ SER FEITA USANDO COREOGRAFIAS DE “STREET DANCE”.
MUDA LUZ. GUSTAVO, PAI DE RODRIGO, ESTÁ SENTADO NO SOFÁ. O SEU ROSTO É MARCADO PELO SOFRIMENTO. OLHA PARA UMA FOTO. QUASE CHORA. ENTRA ALICE, SUA MULHER, QUE O OBSERVA POR UM BOM TEMPO. EM SEGUIDA, CAMINHA ATÉ O MARIDO E TIRA A FOTO DA SUA MÃO) ALICE - Relembrando o passado, Gustavo?
(REAÇÃO DE GUSTAVO) Tudo bem, eu entendo. Imagino como você se sentiu depois que “ela” te abandonou. Mas ficar aí, recordando? Por quê? Pra quê? GUSTAVO - A gente já conversou muito sobre esse assunto... ALICE - Eu só não entendi o motivo dela ter te abandonado.
GUSTAVO - Ela teve um motivo. ALICE - E você sabe que motivo foi esse? GUSTAVO - Sei. ALICE - E qual foi? GUSTAVO - (COM UM FIO DE VOZ) Ela estava... grávida. ALICE - (PASMA) Grávida? GUSTAVO - É. Grávida! ALICE - Mas porque você me escondeu isso, Gustavo?
GUSTAVO - E que importância tinha? Se você não me questionasse sobre o assunto, não ficaria sabendo. Se eu abri o jogo com você agora é porque sei que o nosso relacionamento está alicerçado em bases sólidas... que esta foto faz parte do meu passado e que nada neste mundo é capaz de separar a gente.
ALICE - E o que você fez pra que ela agisse dessa maneira? GUSTAVO - Uma vez ela me perguntou se eu queria ter um filho... E eu respondi que naquele momento eu não queria, porque estava prestes a subir de cargo na empresa e que para ter um filho eu precisava estar bem economicamente...
Naquele tempo eu não tinha nada, nem carro eu tinha. Depois, quando fui procurá-la, ela havia se mudado do apartamento sem me dizer nada... Mais tarde, ela me escreveu uma carta dizendo que tinha me abandonado porque estava grávida e não queria que eu rejeitasse a criança.
Mas eu juro pra você, Alice, que se ela tivesse aberto o jogo comigo, eu não iria rejeitar meu filho. Nós éramos muito jovens, mas eu assumiria a paternidade... Depois disso, nunca mais recebi nenhuma notícia dela. E hoje, 19 anos depois, não sei se ela está viva ou morta, não sei sobre o paradeiro da criança...
Não sei de absolutamente nada... ALICE - Gustavo, me responda com toda a sinceridade. Você me ama? GUSTAVO - Muito. Eu sou muito grato à você por ter me tirado da depressão. E mais grato ainda porque você me deu um filho lindo, que fez minha vida andar para a frente.
ALICE - Você tá confundindo amor com gratidão... Não é isso que eu quero saber... Eu quero saber se você me ama ou se eu fui apenas um objeto para fazê-lo esquecer dessa mulher... (PAUSA TENSA) Responde, Gustavo. RODRIGO - (ENTRANDO) Pai, me dá uma carona até a casa do Lucas?
GUSTAVO - Claro, filho. (PARA ALICE) Mais tarde a gente conversa, e eu te conto o resto... RODRIGO - Conta o quê, pai? ALICE - Nada não, filho... Nada, não. (ALICE ENTREGA A FOTO PARA GUSTAVO, QUE ESCONDE RAPÍDAMENTE. DEPOIS, ABRAÇA O FILHO CARINHOSAMENTE.
OLHA-O POR UM BOM TEMPO. DEPOIS O BEIJA. EM SEGUIDA SOBE RAPIDAMENTE PARA O QUARTO) GUSTAVO - (CHAMA) Adelaide. (ADELAIDE É A EMPREGADA. É UM BUFÃO. USA ÓCULOS FUNDO DE GARRAFA, É CORCUNDA, TEM PEITO DE POMBO, MANCA DE UMA PERNA, SOFRE DE MAL DE PARKSON E TRAJA UM UNIFORME DE EMPREGADA.
APESAR DE TODAS ESSAS DEFICIÊNCIAS, É BASTANTE ÁGIL) ADELAIDE - Às ordens, senhor. GUSTAVO - Vou levar o Rodrigo até Santa Cecília e de lá vou pro trabalho. Traga o meu paletó ADELAIDE - Está certo, senhor. (SAI E VOLTA COM O PALETÓ) Pronto, senhor. (SAI) GUSTAVO - Adelaide.
ADELAIDE - Às ordens, senhor. GUSTAVO - Traga os meus sapatos pretos. ADELAIDE - Está certo, senhor. (SAI E VOLTA COM OS SAPATOS) Pronto, senhor. (SAI) GUSTAVO - (COM O PAR DE SAPATOS NA MÃO) Adelaide. ADELAIDE - Às ordens, senhor. GUSTAVO - (ENTREGA PARA ELA O PAR DE SAPATOS) Calce os meus sapatos.
ADELAIDE - Está certo, senhor. (CALÇA OS SAPATOS NELE) Pronto, senhor. (SAI) GUSTAVO - Estou bem assim, filho? RODRIGO - Está ótimo. GUSTAVO - Adelaide. ADELAIDE - Às ordens, senhor. GUSTAVO - Pegue a chave do carro. ADELAIDE - Está certo, senhor. (SAI E VOLTA COM AS CHAVES DO CARRO) Pronto, senhor!
(SAI) GUSTAVO - (PARA O FILHO) Vamos? RODRIGO - Vamos. (SAEM) GUSTAVO - (GRITA EM OFF) Adelaide, o carro enguiçou. Venha empurrar... ADELAIDE - (ATRAVESSA A CENA CORRENDO, GRITANDO) Está certo, senhor. (OUVE-SE O RUÍDO DO CARRO. O MOTOR MORRE A TODA A HORA.
FINALMENTE, DEPOIS DE DEZENAS DE TENTATIVAS, O MOTOR FUNCIONA E O CARRO SAI EM DISPARADA. FOCO EM ALICE, QUE DO SEU QUARTO, OBSERVA TODA A CENA, COM ENORME TRISTEZA. ACENA COM A MÃO, SE DESPEDINDO DOS DOIS. ABRE O GUARDA-ROUPA, PEGA UMA MALA E COMEÇA A ESVAZIÁ-LO, COLOCANDO SUAS ROUPAS NA MALA.
PEGA A MALA E DESCE LENTAMENTE. CAMINHA ATÉ A ESCRIVANINHA, PEGA PAPEL, CANETA E COMEÇA A ESCREVER UMA CARTA. TUDO ISSO DEVE SER FEITO DE UMA FORMA BEM LENTA. DEPOIS DE ESCREVER A CARTA, DEPOSITA-A NUM ENVELOPE E COLOCA SOBRE A MESA. PEGA UM PORTA-RETRATO, ONDE ESTÁ A FOTO DOS TRÊS.
BEIJA A FOTOGRAFIA E COLOCA O PORTA-RETRATO NO LUGAR E A CARTA NA FRENTE DELE. OLHA O AMBIENTE POR UM BOM TEMPO. ENTRA ADELAIDE) ALICE - (PARA ELA) Não precisa me perguntar, nem responder nada... Mas cuide bem deles, Adelaide. Você agora é a dona desta casa.
Eu vou embora para nunca mais voltar... (ADELAIDE FICA COM CARA DE TACHO E ALICE SAI LENTAMENTE. ADELAIDE, TEM UMA CRISE DE CHORO E SAI CORRENDO PARA OUTROS CÔMODOS DA CASA, LIMPANDO AS LÁGRIMAS NO AVENTAL. FOCO SOBRE O PORTA-RETRATO E A CARTA. FOCO DESCE EM RESISTÊNCIA ATÉ O BLACK-OUT) CENA 5 (NOVA MUDANÇA DE CENÁRIO.
DA MESMA FORMA EM QUE TIRARAM O CENÁRIO DO CASARÃO DE LUCAS PARA PÔR O CENÁRIO DA CASA DE RODRIGO. O CENÁRIO DO CASARÃO VOLTA À CENA. LUCAS E VIVIANE ESTÃO NA CAMA, ABRAÇADOS. ACABARAM DE FAZER AMOR. UM LENÇOL BRANCO OS ENVOLVE. VIVIANE COME UMA MAÇA E LUCAS BEIJA-A) VIVIANE - Sabia que eu era capaz de ficar assim, abraçada com você pra sempre?
Me sinto protegida, livre de qualquer perigo... Você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida... LUCAS - Você também. (SEM JEITO) Me perdoa, vai. Eu não queria falar com você daquele jeito. É que a vida da gente parece, sei lá, um labirinto: cheios de caminhos para escolher.
E eu tenho medo de escolher o caminho errado e quebrar a cara... VIVIANE - Mas pode continuar caminhando sem medo de encontrar uma barreira no seu caminho. E se isso acontecer, pode ter certeza que eu vou ficar do seu lado para o que der e vier. E nada nesta vida vai nos desunir.
Nem que tenhamos que brigar com o mundo todo. Nós juntos somos bastante fortes pra enfrentar o mundo: sem obedecer regras ou leis. Apenas a vontade de realizar o que queremos. Dois contra o mundo... (BEIJAM-SE. RODRIGO ENTRA COM GUSTAVO) RODRIGO - Lucas...
(LUCAS E VIVIANE SE ASSUSTAM E VESTEM-SE RAPIDAMENTE) LUCAS - (COCHICHA) Ih! Sujou... (VESTEM-SE RAPIDAMENTE, ABAFANDO O RISO. DEPOIS DE PRONTOS, DESCEM PARA A SALA) LUCAS - E aí, moleque? (CUMPRIMENTAM-SE) RODRIGO - (APRESENTA O PAI) Esse aqui é o meu pai, Lucas...
Gustavo. GUSTAVO - Prazer, Lucas... Vim te agradecer pelo que você fez pelo meu filho... Não é qualquer um que dá abrigo e proteção para um desconhecido... LUCAS - Eu só fiz o que tinha de fazer. Não ia deixar que ele ficasse na rua. Ainda mais sabendo que o senhor não podia vir buscá-lo.
São Paulo é uma selva muito perigosa. (APRESENTANDO VIVIANE) Essa aqui é a Viviane, minha namorada... RODRIGO - (PARA LUCAS, CONFIDENCIAL) Rabudo, hein? LUCAS - (IDEM) Sentiu o poder do “papai” aqui? VIVIANE - O que vocês estão cochichando, hein? AMBOS - Nada.
VIVIANE - Aposto que é sobre mim... Podem falar. LUCAS - Assuntos de meninos, coração. VIVIANE - Hum... Machistas! GUSTAVO - (FASCINADO PELO CASARÃO) Gostei muito desse casarão... Tá precisando de uma reforma, talvez uma restaurada... Claro que nessa brincadeira vai muita grana...
Esse espaço aqui já foi tombado pelo patrimônio histórico, Lucas? LUCAS - Acho que sim, seu Gustavo. Não sei direito. GUSTAVO - Vamos deixar as formalidades de lado. Pode me chamar só de Gustavo. LUCAS - Ok... Gustavo. GUSTAVO - Melhorou... Então você mora neste lugar maravilhoso e não sabe se foi tombado?
(COMEÇA A PASSAR AS MÃOS NAS PAREDES) Que coisa maravilhosa!!! (SEM QUERER, ESBARRA NUM QUADRO E O DERRUBA NO CHÃO) Desculpa, Lucas. Eu sou mesmo um desastre... (PEGA O QUADRO E LEVA UM TREMENDO SUSTO AO VER A FOTOGRAFIA) RODRIGO - O que aconteceu, pai?
GUSTAVO - Não, não pode ser... É que essa moça da fotografia é muito parecida uma pessoa que... (PERTURBADO) Ai, minha cabeça. Acho que é paranóia. É muita coincidência... Quem é essa moça, Lucas? LUCAS - Minha mãe... GUSTAVO - (CORTA A FALA DE LUCAS, BALBUCIANDO) Mãe?
LUCAS - Você conhecia ela? (GUSTAVO FICA UM LONGO TEMPO SEM DIZER NADA. O CLIMA É TENSO) LUCAS - Conhecia a minha mãe? GUSTAVO - Eu não acredito que isso está acontecendo... RODRIGO - O que você tá dizendo, pai? GUSTAVO - (IGNORA RODRIGO. PARA A FOTO) Finalmente eu te encontrei, Ana.
LUCAS - Então vocês se conheceram? Esse mundo é muito pequeno. GUSTAVO - É. Esse mundo é muito pequeno, Lucas... Ana... Por que você fez isso comigo? Por quê? Por que me privou de ter meu filho em meus braços?... LUCAS - (JUNTANDO AS PEÇAS DO QUEBRA-CABEÇAS) Então...
Você é... é... (CHORA E NÃO CONSEGUE COMPLETAR A FRASE) GUSTAVO - Sim, Lucas... Sou eu mesmo... (CHORA E ABRAÇA LUCAS) VIVIANE - Vocês querem me explicar o que está acontecendo? Não tô entendendo nada! RODRIGO - Nem eu... Querem ser mais claros, por favor?
Vocês estão me deixando nervoso. Fala, pai, o que é? Lucas?! GUSTAVO - (SOLTA-SE POR UM MOMENTO DE LUCAS) Rodrigo... esse grande amigo que você tem, que, por uma ironia do destino, sei lá, te livrou do assalto... RODRIGO - Não enrola, pai. GUSTAVO - (SORRIDENTE) ...é seu irmão...
RODRIGO - (CHOCADO, MAS FELIZ) Como é que é? VIVIANE - Eu não acredito! GUSTAVO - O Lucas é meu filho... RODRIGO - (INCRÉDULO) Filho?!!!! GUSTAVO - Sim... Meu filho. Eu nunca falei isso pra você, Rodrigo. Antes de conhecer sua mãe, eu namorava a Ana. Aí um dia ela engravidou e me deixou porque achava que eu fosse rejeitar o Lucas.
Mas em momento algum eu te rejeitei, Lucas... Meu Lucas... (GUSTAVO NUM IMPULSO, ABRAÇA E BEIJA LUCAS) GUSTAVO - Como eu esperei por esse momento... (LUCAS FICA OLHANDO PARA GUSTAVO IMAGINANDO-SE MAIS VELHO. GUSTAVO, IDEM) LUCAS - Como eu senti sua falta, meu pai...
(PARA RODRIGO, QUE ESTÁ PETRIFICADO) É isso aí, mano véio. (OS QUATRO SE ABRAÇAM) GUSTAVO - E onde está sua mãe, Lucas? Não vejo a hora de reencontrá-la e esclarecer tudo de uma vez por todas... LUCAS - Ela... morreu. Há dois anos... (GUSTAVO FICA IRRITADO CONSIGO MESMO) GUSTAVO - Tudo por causa de um mal-entendido.
Eu nunca pude dizer à ela o quanto eu a amava e que daria minha vida pela dela... Se ela não tivesse me abandonado as coisas seriam diferentes... Onde ela está enterrada? LUCAS - No cemitério da Consolação, no túmulo da família. GUSTAVO - Eu quero que você me leve até o túmulo dela.
LUCAS - Quando o senhor quiser... (VIVIANE COLOCA A CHALEIRA SOBRE A MESA) VIVIANE - Gente, vamos tomar um chá pra acalmar. É muita emoção para um dia só. Nós todos estamos tremendo... (TODOS SENTAM-SE À MESA. VIVIANE SERVE O CHÁ PARA O TRIO) GUSTAVO - Hoje mesmo vamos ao cartório.
Eu vou te reconhecer como filho... Só não queria que você guardasse nenhuma mágoa de mim. LUCAS - Eu nunca guardei. GUSTAVO - Nem mágoa da sua mãe. Ela só quis o seu bem. Só que se precipitou. LUCAS - Eu sei. Também não tenho mágoa dela, não. GUSTAVO - Que bom.
Fico feliz ao ouvir isso. (MUDA O TOM) Vamos lá pra casa. Você agora tem quem cuide de você. Não vai mais precisar ficar morando aqui... LUCAS - (SEM JEITO) Não leva a mal, não, mas eu prefiro ficar aqui. Você me entende, né? Mas vamos nos encontrar todo o dia.
Temos muito o que conversar. GUSTAVO - Claro... Bom, você já sabe o que te convém e o que te prejudica. Faça como quiser e da forma que quiser que receberá o meu apoio. Ou melhor, o nosso apoio. A Alice, mãe do Rodrigo, também vai adorar você... LUCAS - Será que ela vai entender?
GUSTAVO - Claro. Ela já sabe de tudo. Fica tranqüilo!!! RODRIGO - Pai, o que o Lucas precisa de imediato é uma empregada. Manda a Adelaide fazer uma faxina aqui de dois em dois dias... Olha, Lucas, é a melhor empregada que eu conheço. É só chamar que ela aparece.
Quer ver só? (VAI ATÉ A JANELA E CHAMA ALTO) Adelaide! (OUVE-SE O ECO DA VOZ DE RODRIGO. ADELAIDE ENTRA CORRENDO, ESBAFORIDA. OUVE-SE NO ÁUDIO O JINGLE DO “PAPA-LÉGUAS”) ADELAIDE - Às ordens, senhor. RODRIGO - Não falei? GUSTAVO - Ela é eficientíssima.
E só abre a boca pra dizer: “As ordens, senhor”, “Está certo, senhor”, “Pronto, senhor”. (CHAMANDO) Adelaide ADELAIDE - Às ordens, senhor. GUSTAVO - A partir de hoje você virá aqui neste casarão de dois em dois dias fazer uma faxina, está certo? ADELAIDE - Está certo, senhor...
GUSTAVO - Vamos, comece o trabalho... (ADELAIDE VAI INICIAR A FAXINA. LEMBRA-SE DE ALGO. PEGA A CARTA DE ALICE E DIRIGE-SE PARA GUSTAVO COM A CARTA EM PUNHO) ADELAIDE - Senhor... GUSTAVO - Uma carta? Pra mim? Passe pra cá. ADELAIDE - (ENTREGA-LHE A CARTA) Pronto, senhor...
GUSTAVO - Agora vá cuidar dos seus afazeres... Que estranho! Uma carta da Alice!!! (ADELAIDE SOBE PARA O QUARTO E CONGELA. GUSTAVO ABRE A CARTA. A VOZ DE ALICE É OUVIDA NO ÁUDIO. RODRIGO LÊ A CARTA JUNTO COM O PAI) ALICE - (OFF) “Gustavo, até quando vai ficar chorando pelo leite derramado?
As coisas já aconteceram. Cada um escolheu o seu caminho: ela seguiu o dela com o seu filho e você, o seu. Agora só resta pagarmos pelos nossos atos e espero que o preço que tenhamos que pagar não seja tão alto quanto o dela. Você sempre gostou de mim, sempre foi carinhoso comigo, sempre me respeitou, mas nunca me amou.
Você viveu durante dezesseis anos com uma amiga... O seu passado te atormenta. Eu não agüento mais viver assim... tentando tapar o sol com a peneira, achando, ou melhor, sabendo que você não me amava, mas com a esperança de que um dia me amasse. E é por isso que vou embora.
Não se preocupe comigo. Agora é a sua vez. Vá atrás desta mulher e do seu filho. Dê o seu nome pra ele e tente aproximá-lo do Rodrigo. O caminho está livre... Vou fazer uma viagem para esfriar a cabeça e na volta a gente conversa sobre o divórcio... Ah, cuide bem do nosso menino.
Ele pode parecer um adulto, mas ainda é uma criança... Rodrigo, eu não estou te abandonando, eu só não vou te levar comigo porque seu pai precisa muito de você. Te amo muito, filho. Escreverei em breve. Até logo, Gustavo.... Alice.” (RODRIGO NÃO QUER ACREDITAR.) GUSTAVO - Eu sabia que isso iria acontecer...
RODRIGO - (CHORANDO) Pai... Ela vai voltar, não vai? GUSTAVO - Claro que vai, filho. Claro que vai... (ABRAÇAM-SE. BLACK-OUT. VOLTA A LUZ. ADELAIDE, SOZINHA, PEGA UM DISK-MAN E O COLOCA NO OUVIDO. OUVE-SE “CONGA,CONGA”, DA GRETCHEN. ADELAIDE PEGA UMA VASSOURA E COMEÇA A LIMPAR O CASARÃO, DANÇANDO DE ACORDO COM A MÚSICA.
DEIXA O CASARÃO BRILHANDO. TAREFA FEITA, SAI DE CENA) CENA 6 (UMA CARTA É JOGADA EM CENA. LUCAS, RODRIGO E VIVIANE VOLTAM) RODRIGO - Por que tinha que ser assim, hein? LUCAS - Ela tava infeliz. Foi melhor assim. Acredite em mim. RODRIGO - Tenho medo que ela não volte.
LUCAS - Ela volta. Ela só precisa de um tempo pra esfriar a cabeça... O que ela passou não foi brincadeira. (VIVIANE ENCONTRA A CARTA) VIVIANE - Lucas, uma carta pra você... LUCAS - Pode abrir, Viviane.. (VIVIANE ABRE A CARTA, LÊ E FICA AFLITA) LUCAS - (PERCEBE A AFLIÇÃO DA NAMORADA) Que cara é essa?
O que está escrito aí? VIVIANE - (ENTREGA A CARTA A LUCAS) Leia você mesmo. LUCAS - (LENDO, SEM ACREDITAR) Como é que é? VIVIANE - Você tem trinta dias pra desocupar o casarão... LUCAS - Não pode ser. Estou em dia com os aluguéis... Mas por que diabos o proprietário quer o casarão?
VIVIANE - Acho melhor você procurar esse homem e esclarecer tudo. Onde ele mora? LUCAS - Nesse prédio vizinho... VIVIANE - Ele não pode fazer isso com você... Não é justo. Ah, meu Deus, por que tudo o que é ruim está acontecendo com a gente, hein? Parece uma bola de neve numa avalanche.
LUCAS - Vou até lá tirar isso a limpo! (SAI) RODRIGO -Deve ser algum engano. Se o Lucas pagou os aluguéis em dia, não tem como haver despejo. É só mostrar os recibos. VIVIANE - O proprietário não pode tirar o Lucas daqui assim. E agora, pra onde a gente vai?
RODRIGO - Se não tiver jeito, vocês vão morar lá em casa. Vai ser até melhor pro papai, pra mim. Vamos esperar o Lucas chegar e a gente esclarece isso de uma vez por todas... VIVIANE - (REVIRANDO ALGUNS PAPÉIS) Preciso saber onde o Lucas meteu esses recibos.
RODRIGO - Eu ajudo você... VIVIANE - Se o Lucas não fosse tão bagunceiro, a gente achava logo esses recibos. (PROCURA EM OUTRA GAVETA) Nada. RODRIGO - Será que ele não jogou os recibos no lixo? VIVIANE - Era só o que me faltava... RODRIGO - Ele pode ter feito isso, vai saber.
VIVIANE - A gente tem que achar. Senão não tem como o Lucas provar que os pagamentos foram efetuados. LUCAS - (ENTRANDO) Esquece, Viviane. Não esquenta com isso. Nós temos mesmo trinta dias para desocupar o imóvel. VIVIANE - Mas como, se os aluguéis estão em dia?
LUCAS - Sim, estão. Só que o contrato vence no mês que vem e o proprietário não quer renová-lo. Nunca parei pra ver essas coisas. Era minha mãe que fazia isso. Lembro que dias antes de morrer, ela tinha renovado o contrato. Isso já faz dois anos, portanto ele vence agora.
Por isso veio a carta, com o comunicado. VIVIANE - Mas, por que ele não quer renovar? Pra que ele vai querer o casarão? LUCAS - Pra demolir isso aqui e fazer um estacionamento. VIVIANE - O quê? Mas que absurdo! RODRIGO - Lucas, se o casarão é tombado pelo patrimônio histórico ele pode ser demolido?
LUCAS - (CONFORMADO) Acontece que esse casarão não foi tombado... E vai ser demolido, sim. VIVIANE - (DESESPERADA AO VER LUCAS NAQUELE ESTADO) Lucas, não fique assim. Grite, proteste, xingue, quebre tudo o que você encontrar pela frente, mas não fique calado, pelo amor de Deus.
RODRIGO - É isso mesmo, mano. Lute pelos seus direitos. Ainda é tempo. LUCAS - Agora não adianta mais nada, mano. Acabou... Tudo o que começa, acaba um dia... É assim... É assim. (OS TRÊS SE ABRAÇAM E CHORAM, INCONFORMADOS) EPÍLOGO (PALCO NA PENUMBRA.
O CAMINHÃO DE MUDANÇA ESTÁ PARADO NA PORTA DO CASARÃO E OS ATORES E/OU BAILARINOS RETIRAM TODOS OS MÓVEIS DA CASA. LUCAS ESTÁ BASTANTE ABATIDO E OBSERVA CADA CANTO DO CASARÃO. TODA A SUA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA LHE VÊM À MENTE. SE POSSÍVEL, DEVERÁ SER PROJETADO NUM TELÃO, IMAGENS DA MORTE DA MÃE DE LUCAS, O ENCONTRO COM VIVIANE, COM RODRIGO, O ENCONTRO COM O PAI, ENFIM, UM FLASHBACK DE TODOS OS MOMENTOS EM QUE O RAPAZ PASSOU ALI.
LUCAS SENTA-SE NA ESCADA. FIM DAS IMAGENS. VIVIANE E RODRIGO, OLHAM PARA ELE) RODRIGO - (QUEBRA O GELO) O caminhão já vai sair, Lucas... VIVIANE - Você não está sozinho nessa, meu amor... LUCAS - Minha vida acabou. VIVIANE - Pelo contrário, nossa vida tá começando agora.
RODRIGO - É isso aí, mano. LUCAS - Como eu gostaria de ser otimista como vocês... RODRIGO - (DÁ UMA BRONCA NO IRMÃO) O que é isso, rapaz? Ergue a cabeça, porra! Logo você que nunca se deixou abater por nada, agir dessa maneira? Como é que é? Isso não é nada perto dos problemas que você passou, caralho.
Como é? Será que eu vou ter que te tirar daqui na porrada? LUCAS - (RECUPERA O ÂNIMO) E. Não vai ser isso que vai me derrubar. Vida nova... RODRIGO - É isso aí... Vamos levantar um brinde. (CHAMANDO) Adelaide. ADELAIDE - Às ordens, senhor. RODRIGO - Traga quatro taças e uma champanhe!
ADELAIDE - Está certo, senhor. (SAI E VOLTA COM A CHAMPANHE E AS TAÇAS) Pronto, senhor. RODRIGO - Adelaide ADELAIDE - Às ordens, senhor. RODRIGO - Sirva-nos e brinde com a gente! ADELAIDE - Está certo, senhor. (ENCHE A TAÇA DE TODOS E A SUA PRÓPRIA TAÇA) RODRIGO - Um brinde ao nosso futuro.
TODOS - Ao nosso futuro! (BRINDAM E BEBEM. ADELAIDE VIRA A TAÇA) RODRIGO - Adelaide! ADELAIDE - (BÊBADA) As ordens, senhor. RODRIGO - Ligue para o papai e diga que nós já estamos saindo daqui. ADELAIDE - Está certo, senhor. (ADELAIDE RETIRA DO AVENTAL UM CELULAR, DISCA UM NÚMERO E FALA COM GUSTAVO, SEM QUE O PÚBLICO OUÇA A SUA VOZ E SAI DE CENA, JÁ TOCADA PELO EFEITO DO ÁLCOOL) VIVIANE - Essa Adelaide...
RODRIGO - Lucas, qualquer mudança brusca na nossa vida, por pior que seja, tem o seu lado bom. Eu achava que não conseguiria viver sem a minha mãe. Hoje, trinta dias depois, muita coisa mudou. Ela tá feliz. E o nosso pai também. É isso que importa. Tem gente que opta pela infelicidade.
E isso é muito pior, você não acha? LUCAS - (ERGUE NOVAMENTE A TAÇA) Um brinde ao nosso amor! (BRINDAM. LUCAS SOBE CORRENDO PARA O QUARTO) Não sei o que seria de mim, se vocês não existissem. RODRIGO - Deixa de bobagem, seu trouxa... LUCAS - Não é bobagem, não.
Eu sei muito bem do que estou falando. Obrigado por você aparecer por essa porta e pedir para que eu o protegesse. Na verdade, foi você que me protegeu, Rodrigo. Através de você eu pude encontrar o meu pai. E você, Viviane, por me fazer o homem mais feliz do mundo...
Vamos agora, nós quatro, com o papai, começar uma vida nova. Sempre olhando pra frente, pra linha do horizonte. Vamos caminhar sem medo de encontrar uma barreira no nosso caminho... Vamos ser livres e felizes. Porque são as duas coisas que mais nos interessam neste momento...
Nada mais!... (VIVIANE E RODRIGO SEGURAM NAS MÃOS DE LUCAS E, DO PLANO ALTO EM QUE ESTÃO, SALTAM PARA A VIDA, JUNTOS. BLACK-OUT FINAL) FIM