Sobre saudades e conseqüências
Eu
e meus pensamentos e um frenesi qualquer e um pouco de esperança nos
bolsos, impaciência, impaciência. Sempre impaciência. Eu com vontade de
fazer um espetáculo enquanto a cidade simplesmente acontece. Acontece
como sempre. E sempre um fim de tarde que eu não assisto por que estou
perdendo muito tempo me perdendo de mim. E por que eu queria aquele
beijo de boa noite e dormir de conchinha com ele, só dormir, só sentir
os olhos pesando em cima do peito com umas pintinhas assim que eu
adoro. Por que só com ele eu sei ser piegas e eu preciso ser piégas pra
não me esquecer de quem eu sou. Então a noite está bonita. E logo logo
ela acaba e pode ficar feia, e está mais do que na hora de eu me
preparar pra isso. Parar de achar que ele está em todo lugar. Sempre
ele. Até ali no cantinho da cozinha. As palavras que eu mais uso. Ele.
Ela. Eu. Sempre.
E aí eu penso que isso tinha que durar pra sempre
mas que não é sensato. E querendo encontrar um monte de gente, um monte
de coisa e um monte de poesia que eu não encontro mais. Não acontece
nada. E eu fico aqui esperando que aconteça. E o tempo passa. E eu
continuo sentada esperando. Mesmo com tudo diferente. Mesmo vivendo que
nem gente grande. Mesmo me escondendo atrás daquela lá que diz que sou
eu por aí e todo mundo acredita. Então ta. Eu vou continuar fazendo
isso. E vocês vão continuar acreditando. É assim que acontece desde que
eu aprendi a somar dois mais dois. Antes disso eu não lembro. Não que
você não me faça feliz do seu jeito todo torto pra não deixar que eu me
quebre. E eu fico aqui pensando que você bem que podia ficar muito
bonito ali encostado naquela parede do quarto. Fazendo qualquer coisa.
Pensando em nada ou bravo por que o dia foi fóda. Mas aí é tudo igual.
O resto você já sabe. O resto é a minha repetição, só. A gente não sabe
se foi o tempo, se foi a conseqüência, ou se foi o suicídio ou a busca
da cura na doença ou se foi a passividade no meio do inferno. Alguma
coisa foi. Acho que foi minha falta de sorte. Ela fez de mim essa que
eu sou hoje. O que não é grande coisa. É que esse risco não vale a pena
assim como ninguém vale. Assim como eu não valho nem um pouco, nem um
pouquinho assim. A pena, quero dizer. E você sabe. Você sabe bem. O que
eu ainda estou tentando descobrir, é por que você não saiu correndo se
você sabe disso. Por que, darlin? Por que?