Edição 9

Sobre saudades e conseqüências

Karina Abramovich

Eu e meus pensamentos e um frenesi qualquer e um pouco de esperança nos bolsos, impaciência, impaciência. Sempre impaciência. Eu com vontade de fazer um espetáculo enquanto a cidade simplesmente acontece. Acontece como sempre. E sempre um fim de tarde que eu não assisto por que estou perdendo muito tempo me perdendo de mim. E por que eu queria aquele beijo de boa noite e dormir de conchinha com ele, só dormir, só sentir os olhos pesando em cima do peito com umas pintinhas assim que eu adoro. Por que só com ele eu sei ser piegas e eu preciso ser piégas pra não me esquecer de quem eu sou. Então a noite está bonita. E logo logo ela acaba e pode ficar feia, e está mais do que na hora de eu me preparar pra isso. Parar de achar que ele está em todo lugar. Sempre ele. Até ali no cantinho da cozinha. As palavras que eu mais uso. Ele. Ela. Eu. Sempre.
E aí eu penso que isso tinha que durar pra sempre mas que não é sensato. E querendo encontrar um monte de gente, um monte de coisa e um monte de poesia que eu não encontro mais. Não acontece nada. E eu fico aqui esperando que aconteça. E o tempo passa. E eu continuo sentada esperando. Mesmo com tudo diferente. Mesmo vivendo que nem gente grande. Mesmo me escondendo atrás daquela lá que diz que sou eu por aí e todo mundo acredita. Então ta. Eu vou continuar fazendo isso. E vocês vão continuar acreditando. É assim que acontece desde que eu aprendi a somar dois mais dois. Antes disso eu não lembro. Não que você não me faça feliz do seu jeito todo torto pra não deixar que eu me quebre. E eu fico aqui pensando que você bem que podia ficar muito bonito ali encostado naquela parede do quarto. Fazendo qualquer coisa. Pensando em nada ou bravo por que o dia foi fóda. Mas aí é tudo igual. O resto você já sabe. O resto é a minha repetição, só. A gente não sabe se foi o tempo, se foi a conseqüência, ou se foi o suicídio ou a busca da cura na doença ou se foi a passividade no meio do inferno. Alguma coisa foi. Acho que foi minha falta de sorte. Ela fez de mim essa que eu sou hoje. O que não é grande coisa. É que esse risco não vale a pena assim como ninguém vale. Assim como eu não valho nem um pouco, nem um pouquinho assim. A pena, quero dizer. E você sabe. Você sabe bem. O que eu ainda estou tentando descobrir, é por que você não saiu correndo se você sabe disso. Por que, darlin? Por que?