Edição 9

Infância

Me Morte

tarde doutora. Essa é Elisa, a menina de que falei ontem. -Sim, sim, mas sentem. Olá Elisa, como vai? -Oi Tia... -Luiza, Tia Luiza. Completou a médica com um sorriso nos lábios. A sua Tia Ana me contou que você é a menina mais esperta do orfanato. E tem apenas cinco anos, é verdade?

-A Tia disse isso? Os olhos da menina brilharam. Eu sou sim. Minha mamãe sempre dizia isso. -Como se chama sua mãe? -Não me lembro não senhora. Só lembro que ela gostava muito de mim. Um dia me deu uma boneca Xuxa enorme. -Verdade? Então sua mãe devia gostar muito de você.

-Ah, gostava sim. Ela sempre disse que eu era a mocinha da casa. -Você ajudava sua mãe nas tarefas? -Claro. Eu cuidava da minha irmãzinha para a mamãe trabalhar. -E sua irmãzinha dava muito trabalho? -Não, era boazinha. Só quando tava doente. Aí ficava chorando no berço.

-Ela não dizia o que doía? A menina deu uma risada que ecoou pela sala. -Ela não falava Tia, era bebe. Não andava, não falava e fazia coco na fralda. -Ah, bom. E você trocava a fralda dela? -Claro que sim. Eu aprendi com minha mamãe. -Onde está sua irmãzinha agora?

-No céu. Ela morreu de doença. -Que tipo de doença? -Ninguém sabe Tia. Ela tava gripada. Minha mamãe deixou remedinho pra eu dar pra ela. Eu dei, mas não adiantou. Ela dormiu e não acordou mais. -Assim? Morreu dormindo? Ninguém percebeu? -Claro que percebi Tia, não sou boba.

Ela chorou e eu dei remédio pra passar a dor. Mas não adiantou, ela chorou uma porção de vezes e eu dava o remédio pra ela parar de chorar, mas ela dormiu e não acordou mais. Depois aquela droga de juíza me trouxe pra cá. Acho que pensou que eu não cuidei dela.

-E você cuidou? -Claro. Mas o remédio acabou...