Um cara precisa ser mais triste
Que mal
há em preferir a perversão que rezas a deuses que só fodem com meus
dias? Pergunto a ela antes de ouvir o barulho da porta estrondeando e
quase arrebentando o batente. Uma briga quando termina é sempre motivo
pra que comece outra. É estúpido tentar explicar qualquer coisa antes
ou depois da porta batendo.
Ela não tem culpa. Só disse
que sou um canalha. Eu disse "veja você que é apenas o uso desviado do
normal, perversão é palavra nova, dessa gente moderna". Quis dizer-me
algo e calou sua cólera num gole bem servido da minha bebida. As
mulheres ficam mais bonitas quando bêbadas, porque se deixam ser
exatamente como são. Isso não é questão de usar máscara, nenhum homem
vai levar uma fulana muito a sério se ela topar chupar seu pau antes de
duas ou três doses. Puro orgulho masculino, saca?
Ser um
homem triste me fez mais feliz. Como é bom não ter ninguém me esperando
pro jantar, ou pra fazer compras naquele supermercado cheio de
corredores e fileiras e operadoras de caixa com metade d minha idade.
Fico mirando meu olhar de soslaio pras paredes que são as mais
agradáveis companhias. Digo se estou deprimido e elas não se oferecem
pra puxar outra cadeira, digo que não tenho saco pros noticiários e
elas não me sugerem o filme do momento, digo que estou faminto e não se
movem pra me preparar algo com pão e queijo. Não se movem pra nada, mas
ficam ali me observando com a ternura que só uma parede pode ter.
Porque as pessoas falam demais, e sempre sabem demais também. Preciso
apenas deste silêncio e da minha consciência pesada pra me importunar.
A mulher não entende que essa é a forma certa de amar. Deixando a
pessoa em paz. Sem encher o saco com latas de ervilha em promoção nem
com o casamento de terceiros. Esse negócio de comparação pode ser muito
perigoso. Você pode descobrir, ou constatar, que você é mesmo muito
pior do que julga. E isso vai te custar um bocado, porque ela vai
querer sempre mais de você.
Cumplicidade só nos lugares
mais imundos que frequento. Lá não importa se me alegro assistindo o
programa que vulgariza a situação daquelas pessoas magras nos países
mais pobres. Cada um acredita na cruz que escolheu carregar. O que
funciona mesmo é o hedonismo. Que segundo antigos sistemas filosóficos
é o único fim da vida.
Caminho a esmo por quaisquer
lugares. Sempre sozinho, nem sempre sou a melhor companhia. Escolho
quando quero dormir, o sono também não gosta da minha companhia.
Nenhuma suportaria isso, de perambular ao meu lado, seria um séquito e
já não acho essas coisas tão suportáveis.
Não me
comparam àquele sujeito ruidoso que senta na sua mesa já no fim da
noite pra contar um caso sobre um caso qualquer. Não me comparam a
nenhum desses caras. Só as mulheres gostam desse negócio de comparação,
é uma disputa infindável entre egos, bolsas e esmalte. Esse último
muitas vezes consegue me dobrar.
Quando fiz meu décimo
terceiro aniversário o sol brilhava mais em cima da minha casa do que
em qualquer outra daquela rua de paralelepípedos. Eu ainda pedia pro
tal papai do céu que guardasse meu sono, do jeito que meu pai tinha
ensinado. Igualzinho. Mas foi esse mesmo cara, segundo minha mãe e as
outras pessoas vestidas de preto, que o tirou de mim antes de eu
mostrar que já não caía mais da bicicleta. Nunca mais juntei as mãos, e
jurei pra esse cara que não precisava de mais ninguém. Por isso digo
que ser triste é o que me faz um sujeito feliz. Minhas ambições não
ultrapassam a curva da esquina, nem vão além de um umbigo cheio de
batom e esmalte. Prefiro ser o cara que arruma brigas, mesmo você me
flagrando na noite com a camisa úmida perdido num olhar tímido que fere
a carne de alguém que queria apenas flagrar a ternura gélida das
paredes.