Tudo a ver com você
falar de literatura em sala de aula no século XXI não é coisa fácil, isso todo mundo já deve ter notado. Mas a questãão é: por quê? Por que é tão difícil ler, estudar, ensinar e discutir literatura hoje em dia? Antes de entrar no núúcleo da questão, gostaria de dar uma dica: “mídias contemporâneas”.
Isso dito, destaco 3 recentes fatos exaustivamente comentados na TVs, rádios, jornais impressos, revistas e websites de nosso país: Senador corrupto é denunciado pela amante, e jornalista, com quem tem uma filha que mantém com pensão milionária aos custos do dinheiro público que desviou durante anos.
Além de ““justa”, a moça é bonita, logo: todas as revistas pornográficas do país mostram-se interessadas em publicar o belo corpo nu pelo bem da arte minimalista: Um carismático e bem sucedido apresentador de TV anuncia que foi assaltado e que teve seu “rolex” (original) roubado.
O fato sensibilizou pessoas de diferentes mundos: meros mortais que o assistem e adoram, e celebridades que, apavorados com a possibilidade de que isso venha a acontecer com elas também, trataram de se pronunciar usando, é claro, a imprensa; Imagens de moradores de favelas, apontados como bandidos pelos policias, sendo executados por tiros vindos de helicópteros, são exibidas em horário nobre nos principais noticiários do país e não causam qualquer tipo de reivindicação ou mobilizaçção social por parte da população, seja ela pobre, rica, negra, branca, intelectual ou analfabeta.
No circo da informação, todo escândalo vira picadeiro. Todos querem seu papel, sua parte no espetáculo, sua fatia do bolo. A bonitona aceita posar para a Playboy, o apresentador dá uma de sociólogo nas páginas amarelas de uma revista tentando se justificar por ter ficado ressentido e assustado com o assalto, já que parte de sua audiência (pobre) disse que rico quando é assaltado não pode ficar bravo não.
Mas e o resto do povo, hein? O que é que eles fazem? Eles assistem meia dúzia de homens serem alvejados enquanto jantam e esperam ansiosos pela novela das oito (que sempre começa às nove). O nome do apresentador todo mundo sabe porque ele é figura carimbada nas revistas semanais e nas tardes de sábado na telinha; o nome da moça todo mundo sabe porque ela é muito “gostosa” e teve “peito para entregar o senador à justiça” - mesmo quando é sabido que pelo tempo que eles ficaram juntos ela sóó decidiu ser justa quando a cana parou de dar açúcar - mas e o nome dos homens executados, quem é que sabe?
As imagens foram exibidas e publicadas nos mesmos veículos, então, teoricamente, o mesmo “todo mundo” que sabe o nome dos 2 primeiros personagens deveria saber o nome dos últimos seis. Mas não. Ninguém sabe. E sabe por que ninguém sabe? Porque ninguém disse o nome deles no jornal, ninguém mostrou a imagem deles em “slow motion” repetidas vezes, uma atrás da outra, até que fosse possível perceber o sangue jorrar de seus corpos enquanto eles caiam sobre as pedras da ribanceira em que desciam desesperados tentando fugir da polícia.
“Ah, mas eram bandidos! Mereciam morrer mesmo.”” É? Quem falou? Você? Se você não sabe nem o nome deles, como vai saber quem eram, e quais crimes cometeram? (se é que cometeram…). Mas a voz da televisão disse que “bandidos foram mortos pela polícia do Rio de Janeiro durante operação “xyz”” que já prendeu mais de abcmil traficantes e matou mais de def...””.
E isso basta pro povo dizer “Amém”; ““Merecia morrer mesmo, era bandido”. Enquanto isso você engole o resto do bife ou caviar, e continua esperando, já impaciente, pela imperdível novela -- sobre as gêmeas de caráter e comportamento opostos que duelam pelo mocinho de olhos azuis até o final, depois de matarem e salvarem meio mundo -- porque isso é mais real, não é?
É mais próximo da sua realidade, isso tem “tudo a ver com você”.