Edição 10

O céu dos quadrinhos

Nicole Louise

Não
devia ser nem seis da manhã... O céu estava meio cinza, meio dourado...
Acho que era a lua se despedindo da terra, ou o sol dando um chega para
lá na lua - o que dá na mesma. O fato é que o céu estava carregado como
uma ilustração de batalha das revistas de quadrinhos dos anos 70. E que
depois de rastejar até a outra ponta do colchão de casal que coloquei
no chão da sala - porque não suportei dormir no calor infernal do meu
quarto - finalmente me convenci a levantar, abrir o armário, pegar a
máquina fotográfica e tirar pelo menos uma foto daquele céu dos
quadrinhos…
Acabei tirando meia
dúzia de fotos e, ao invés de voltar a dormir, sentei no chão da sacada
do meu apê no oitavo andar… e comecei:
“Até que ponto você
pode se aproximar de si mesmo? Mergulhar, assumir, confessar, fechar os
olhos para o buxixo, para o cochicho, para o julgamento alheio e
seguir?
Até que ponto o ser humano é capaz de cavar sua própria almaçã Ou seria ele apenas capaz de cavar seu próprio túmulo?
Até que ponto eu me permitiria sangrar para limpar feridas infectadas por um silêncio que só cultivou mágoas?
Até
que ponto eu suportaria a dor de não ser o que prevejo - ou seria
desejo? - antes de me entorpecer com drogas, bebidas, remédios…; de me
tornar hipocondríaca, maníaca depressiva, uma louca varrida, uma
esquizofrênica sem saíída? “ .
Na ausência de uma resposta divina, oriunda do cééu carregado do que já
devia ser seis da manhã, voltei para cama parcialmente frustrada e
dormi até as onze.