O que falta
Ela saiu
do trabalho no horário de sempre. Cruzou a avenida atravessando a faixa
de pedrestres até o ponto de ônibus. Tarde de garoa fina, tarde fria e
ela só pensava em ir pra casa, e pensava em sua caneca com café forte e
em seu gato que ficaria deitado em seu colo enquanto ela lia alguma
revista. O ônibus demorava, muitas pessoas esperavam o mesmo ônibus. Na
cidade as pessoas esperam por ônibus e por seus salários com a mesma
indiferença. O vento desalinhava seus cabelos ondulados e a garoa batia
em seu rosto que a essa altura não trazia nenhuma maquiagem. Sentiu-se
disposta a caminhar, podia caminhar até o metrô e embarcar num daqueles
vagões. Não fez questão de abrir o guarda-chuva pois sentia a garoa
molhar seu rosto, o que lhe causava uma sensação agradavel. As pessoas
na cidade não caminham muito, são carros ultrapassando faróis
vermelhos, motoqueiros subindo em calçadas tentando manobras, pessoas
que andam quase que correndo e olham somente pra frente. Ela caminhava
com o olhar perdido. Próximo do metrô ela parou debaixo da cobertura de
uma banca de jornal pra acender um cigarro. Ficou ali observando com
que pressa os passantes iam e vinham, e nenhum deles reparava que a
garoa limpava os olhos e o vento levava o ar ruim pra longe. Eles iam e
vinham, os pedestres, esbarrando uns nos outros sem nem perceber e
xispando sem nem mesmo olhar pro rosto do que vinha em sentido
contrario. As pessoas na cidade não se olham cara a cara, e seguem
andando com indiferença. Um carro grande parou perto de onde ela
recostou com seu cigarro, um carro bonito desses que não se vê em todo
lugar. Ela pensou que sua sorte não era tão boa assim. Na calçada,
sentado na guia, um moleque miúdo de cabelo crespo também admirava o
automóvel.
"que merda" ela disse em voz alta mas dava pra perceber que falava pra si.
"eu
tenho um desses tia, só que o meu é bem mais bonito" o moleque de
cabelos crespos disse fazendo com que ela saísse da sua nuvem de
pensamentos quase num susto.
"você é um daqueles bacanas então"
"brincadeira tia, só tenho esses piolhos... mas você pode ter um" torcendo as mãos sem desviar os olhinhos dela.
"porque eu não tenho piolhos?" quase rindo.
"porque você é mulher, tia" e levantando foi indo embora com seus piolhos e seu cabelo crespo.
Quando
ele virou a esquina o carro já tinha saído da vaga e o cigarro só
restava uma última tragada. Jogou a bituca na rua e viu quando foi
arrastada pra dentro do bueiro. Imaginou aquela bituca contribuindo com
alguma enchente, um desmoronamento destruindo casas de famílias como a
daquele moleque miúdo. Passou a mão na cabeça pra afastar os
pensamentos exagerados e trágicos. Entrou no metrô sacodindo os braços
molhados. Um coral de cegos fazia uma pequena apresentação dentro da
estação. Todos vestidos com uma camiseta amarela e calças brancas. Ela
parou perto da catraca pra ouvir um pouco do que cantavam. Pensou que
aquelas pessoas estavam de fato felizes. Na cidade a maioria das
pessoas não enxerga, e têm os cegos, e ela que ouvia a música do coral.
Girou a catraca e dentro do vagão ainda ouvia a música ecoando na
estação. Recostou a cabeça na janela do trem deixando as pálbebras
caírem lentamente. É o único lugar que podia deixar-se adormecer, mesmo
que só por algumas estações. Na cidade as pessoas não descansam, não
caminham e não param pra ouvir música na estação do metrô. Porque elas
caminham sem olhar pros lados, sem sentir o vento ou a chuva. Elas
caminham, apenas, com aquela sensação de que sempre falta alguma coisa.