Edição 10

O que falta

Paula Klaus

Ela saiu do trabalho no horário de sempre. Cruzou a avenida atravessando a faixa de pedrestres até o ponto de ônibus. Tarde de garoa fina, tarde fria e ela só pensava em ir pra casa, e pensava em sua caneca com café forte e em seu gato que ficaria deitado em seu colo enquanto ela lia alguma revista. O ônibus demorava, muitas pessoas esperavam o mesmo ônibus. Na cidade as pessoas esperam por ônibus e por seus salários com a mesma indiferença. O vento desalinhava seus cabelos ondulados e a garoa batia em seu rosto que a essa altura não trazia nenhuma maquiagem. Sentiu-se disposta a caminhar, podia caminhar até o metrô e embarcar num daqueles vagões. Não fez questão de abrir o guarda-chuva pois sentia a garoa molhar seu rosto, o que lhe causava uma sensação agradavel. As pessoas na cidade não caminham muito, são carros ultrapassando faróis vermelhos, motoqueiros subindo em calçadas tentando manobras, pessoas que andam quase que correndo e olham somente pra frente. Ela caminhava com o olhar perdido. Próximo do metrô ela parou debaixo da cobertura de uma banca de jornal pra acender um cigarro. Ficou ali observando com que pressa os passantes iam e vinham, e nenhum deles reparava que a garoa limpava os olhos e o vento levava o ar ruim pra longe. Eles iam e vinham, os pedestres, esbarrando uns nos outros sem nem perceber e xispando sem nem mesmo olhar pro rosto do que vinha em sentido contrario. As pessoas na cidade não se olham cara a cara, e seguem andando com indiferença. Um carro grande parou perto de onde ela recostou com seu cigarro, um carro bonito desses que não se vê em todo lugar. Ela pensou que sua sorte não era tão boa assim. Na calçada, sentado na guia, um moleque miúdo de cabelo crespo também admirava o automóvel.
"que merda" ela disse em voz alta mas dava pra perceber que falava pra si.
"eu tenho um desses tia, só que o meu é bem mais bonito" o moleque de cabelos crespos disse fazendo com que ela saísse da sua nuvem de pensamentos quase num susto.
"você é um daqueles bacanas então"
"brincadeira tia, só tenho esses piolhos... mas você pode ter um" torcendo as mãos sem desviar os olhinhos dela.
"porque eu não tenho piolhos?" quase rindo.
"porque você é mulher, tia" e levantando foi indo embora com seus piolhos e seu cabelo crespo.
Quando ele virou a esquina o carro já tinha saído da vaga e o cigarro só restava uma última tragada. Jogou a bituca na rua e viu quando foi arrastada pra dentro do bueiro. Imaginou aquela bituca contribuindo com alguma enchente, um desmoronamento destruindo casas de famílias como a daquele moleque miúdo. Passou a mão na cabeça pra afastar os pensamentos exagerados e trágicos. Entrou no metrô sacodindo os braços molhados. Um coral de cegos fazia uma pequena apresentação dentro da estação. Todos vestidos com uma camiseta amarela e calças brancas. Ela parou perto da catraca pra ouvir um pouco do que cantavam. Pensou que aquelas pessoas estavam de fato felizes. Na cidade a maioria das pessoas não enxerga, e têm os cegos, e ela que ouvia a música do coral. Girou a catraca e dentro do vagão ainda ouvia a música ecoando na estação. Recostou a cabeça na janela do trem deixando as pálbebras caírem lentamente. É o único lugar que podia deixar-se adormecer, mesmo que só por algumas estações. Na cidade as pessoas não descansam, não caminham e não param pra ouvir música na estação do metrô. Porque elas caminham sem olhar pros lados, sem sentir o vento ou a chuva. Elas caminham, apenas, com aquela sensação de que sempre falta alguma coisa.