Conhecimento
moços, pobres moços … Ah! Se soubessem o que eu sei … cantava Lupcinio Rodrigues… acho que é por ai, penso que estes versos explicam esta celeuma toda causada pelo texto que escrevi há alguns meses sobre o espetaculo FOI TARDE. Na verdade a idade, a velhice precoce é a grande culpada.
Eu já pensei como eles, já senti que eu era o centro do universo e sabia tudo, senti ao caminhar pelas ruas que os outros desconheciam os intricados segredos que eu havia descoberto. Ja vomitei teorias em mesa de bar, citei autores e inventei outros. Talvez o que me irrite seja ver neles o que já fui um dia.
O que me irrita é o pedantismo fajuto, é a idéia furada de que um embornal lotado de livros concede poderes sobrenaturais ao seu portador. O que me enoja é esta postura de que a chave do paraíso só será entregue a poucos iniciados que participaram de uma secreta confraria dedicada a uma epistemologia inócua.
O que eu não consigo engolir é este egocentrismo injustificado que as vezes beira a paranóia: eu sei e você não sabe, logo estou num degrau superior a você na escala evolutiva! Tive que me foder pra aprender que a vida não é assim. Aos poucos fui me dando conta de que aprendi muito com atores, diretores, escritores brasileiros e estrangeiros, vivos e mortos, laureados e anônimos, mas aprendi também com mendigos, com um velho fumador de crack numa casinha fodida lá do conjunto João Paz… tive que tomar no rabo pra sacar que numa noite num hotelzinho da cracolândia eu teria uma puta aula de sobrevivência e amizade com um maluco que dançava com o cachimbo na mão.
Hoje sei que o conhecimento é indispensável, ele é que ajuda a demolir este muro aparentemente instransponível de coisas supostamente sólidas; religião, familia, politica, arte… mas sei tambem que o conhecimento se não administrado pode tornar-se um elemento separador, algo que pode me afastar das pessoas e me deixar só.
Os meninos do curso de artes cênicas, estes envolvidos neste roldão, entraram aqui investidos da armadura sagrada do saber, com seu grande escudo acadêmico e bramindo suas espadas de teorias… isto tudo não é nada! Pudessem eles baixar a guarda e talvez aprendessem que tudo isto não passa de uma grande besteira, que o conhecimento só serve quando usado, como qualquer outra coisa, pra minorizar o sofrimento alheio, pra construir arte, pra fazer rir, chorar, pensar, gozar… que tenha o poder de fazer um sujeito numa rodovia qualquer ter um insight e voltar...
o conhecimento só não deveria servir pra separar as pessoas em feixes: uns pra glória efêmera e outros pro fogo eterno! Mas eles não vão me ouvir, terão que passar pelo que passei pra decobrir estas coisas que pra mim, agora, parecem elementares… eles terão que descobrir outro cavaleiro de armadura a sua frente, tão pedante e ególatra quanto, e ai, depois de um duelo de morte, talvez descubram que sua espada era na verdade plástico.
Talvez só mesmo batendo a cara conta o muro se darão conta de que o creme não precisa esconder os morangos. A idade me força a desenvolver a paciência, acho que a mesma paciência que tiveram comigo quando eu andava por ai com um embornal lotado de teorias.
Ah! Estes moços, pobres moços, se soubessem o que eu sei…