A mulher e a flor
acordei enviesada. Acordar enviesada significa transfigurar a leitura retilínea e monótona do mundo. É desequilibrar o olhar de propósito e perceber os ângulos dos sentimentos. Eu me perfumo quando te escrevo. E perfumar-me não significa ir ao seu encontro.
Porque quando eu ia, ficava sem jeito, recendendo a almíscar, quando não via aceno para seguir em frente. Ficava sobre o abismo, equilibrista, sem poder atravessar a ponte, dependendo do sopro da sua imperiosa aceitação. Hoje, sem pontes nem muros, eu me perfumo porque o amor é pessoal, é qualidade minha, não depende dos outros porque uns amam aparecendo, outros desaparecendo, uns amam em silêncio, outros fazendo versos, e se buscamos a equivalência a dor é sempre inevitável.
Então eu me comprazo no meu amor, como uma pétala desdobrável que se abre a cada manhã, fresca e úmida, sem esperar que me colham. A rosa é a rosa. Exala o melhor de si como a pele se perfuma para o amor. O que vem depois é o sim ou o não, mas não é realidade.
A realidade é minha capacidade infinita de sentir amor, como a flor na montanha. Sem que ninguém a veja, sem que ninguém a colha, sem que ninguém a acaricie. Mas ela é flor e sua natureza é perfumada pelo mistério que a declara, enquanto viva, flor e mulher num estado de suprema sensibilidade.