Extinção
o conhecia de vista, nunca tinha trocado uma idéia com ele. Falavam que era chegado numa bruxaria, satanismo, como nunca acreditei nisso, me aproximei dele. Vivia isolado. Contava que seu sonho era morar numa ilha deserta e ficar vendo o mundo explodir- sempre quando dizia isso, abria um sorriso.
Tinha pai e mãe, mas era a mesma coisa que não tê-los. Seu aprendizado foi nas ruas. Com a “bandidagem” dizia ele. Não era ladrão, só os admirava. Falava que a sociedade deveria dar mais valor aos ladrões “imaginem, caras que não tinham nada a perder, de uma hora pra outra, passam a ser respeitados, todos querendo ser como eles, e o futuro é um só: a cova, mesmo assim, surgem do inferno para dar esperança a quem não tem, uma vida de emoção, adrenalina, selvageria....
era isso que eu queria ser... coragem é que me falta” falava desanimado, eram sempre as mesmas palavras, que acabava frustrando nosso personagem. Marcos era seu nome, um homem que se você olhasse bem na bolinha do olho, iria ver um oceano cheio de lágrimas, dor e nenhuma esperança.
Levava sua vida como se o amanhã não existisse. Falava pra todos o que vinha em sua mente, fazia qualquer coisa que desse vontade. Talvez seja por isso que tivesse poucos amigos, ninguém acreditava em sua vida desregrada. Adorava rock and roll e futebol.
Fazia parte daquelas torcidas organizadas, cantava, xingava, dava porrada em torcedores rivais, “uma sensação muito louca” dizia Marcos. “Pena que hoje em dia acabaram com as torcidas, aliás, acabam com tudo nesse país, não existe mais nada que me agrade”, é só corrupção e mais nada “.
Era estranho um cara que queria levar uma vida de adrenalina, se preocupar tanto com os políticos de nosso país” esses aí, possuem tudo, nasceram em berço bom, foram educados nas melhores escolas e querem mais e mais dinheiro, os jovens deveriam se unir pra acabar com essa corja de assassinos, assassinos sim, matam com a caneta “.
Como vocês podem perceber, Marcos era uma pessoa um pouco confusa. Trabalhava num posto de gasolina, naquelas lojas de conveniências, passava a maior parte do tempo lendo, seus autores favoritos eram: Jack Kerouac, Charles Bukowski, John Fante, Salinger e Mário Bortolotto.
Todos escritores malditos. ‘’Mudaram minha vida” dizia nosso amigo, “me deram um espírito de liberdade que jamais tinha sentido” A não ser com a...,deixa pra lá,mais pra frente vocês vão entender. Mulheres, ele pegava na zona,”menos trabalho”, segundo Marcos.
Tinha se apaixonado só uma vez no colégio, A garota nunca soube. Acreditava ser um loser total. . Achava que sua vida não tinha nenhum propósito, se achava velho, 28 anos, para ele aquela frase dos anos 50 era perfeita: ”viva rápido, morra jovem e seja um belo cadáver”.
Odiava frases feitas como: ”você é jovem, tem muito pela frente”. Marcos há tempos pensava em um jeito de acabar com a sua vida. Até os jogos do seu time do coração não lhe interessavam mais. Continuava indo a shows de rock. Era um ambiente que gostava muito.
Decidiu que iria se matar durante um concerto. Como iria fazer isso? Pensou durante dias num modo. Estava com tudo na cabeça, a hora certa e como faria. Contou só para seu melhor amigo. O amigo já sabia que um dia Marcos iria aprontar alguma coisa desse tipo.
Nem quis discutir, ninguém o fazia mudar de idéia. Despediu-se da família, do cachorro, dos falsos amigos, até da professora de auto-escola, sim, Marcos estava tirando carta. Partiu para o show, viu aquela multidão na porta, se imaginou fazendo tudo que planejou durante dias, sentiu um arrepio na alma.
Olhou para as mulheres que desfilavam seus belos corpos, Marcos sempre sentiu que era uma tortura isso, era insuportável, sua timidez nunca o deixara chegar nas mulheres. Marcos ficou o mais próximo do palco. Na hora mais esperada do show ele iria agir.
A banda entra, a platéia fica enlouquecida, Marcos sobe no palco, corre até o lugar onde tinha deixado a arma, foi cedo no local do show e escondeu sua Magnum 44 num espaço que havia entre o final do palco e a escada, pensou em Michael Corleone. Marcos pegou sua arma...
Toca o telefone...”Merda, esqueci de desligar...” No celular uma voz de uma mulher: “Marcos, sou eu, estou voltando da Europa, quero te ver, preciso te ver, durante esses três anos que fiquei sem olhar pro seu rosto, percebi que você é o homem da minha vida, eu te amo muito, Marcos você está aí?
Alô? Que barulho é esse? Estou indo para a sua casa...”. Nessa hora os seguranças correm até Marcos, ele está paralisado, percebe que não vai ser boa coisa o que os seguranças irão fazer com ele, corre em direção ao público, bem na hora a música pára, ele então rouba o microfone da mão do vocalista e berra: ”preciso ver uma garota!” Os roqueiros vão a loucura, Marcos dá o melhor Mosh da sua vida, salta sobre as cabeças, com os braços abertos, rindo como um moleque que ganhou sua primeira bola de capotão.